Viagem pelas teclas brancas e pretas
O DF abriga o único Museu do Piano do Brasil, espaço pouco conhecido pela população
Por Mateus Lincoln
Em Brasília, a pouco mais de 20 km do Plano Piloto, está o único museu do Brasil dedicado exclusivamente ao piano. O Museu Nacional do Piano funciona no Núcleo Rural Córrego da Onça, próximo ao Catetinho, na sede da Casa do Piano, empresa fundada em 1982 e especializada na venda, locação, manutenção e restauração de pianos acústicos.
O acervo reúne mais de 50 instrumentos, com originais datados a partir de 1850 e réplicas produzidas pela própria instituição, inspiradas em modelos de 1831 e 1890. Entre os destaques está o piano da marca Zeitter & Winkelmann, que pertenceu à pianista Neusa França e no qual foi composto o Hino Oficial de Brasília.
Rogério Resende conduz todas as visitas, apresentando história, curiosidades e características técnicas. O roteiro inclui pianolas, uma coleção com cerca de 700 miniaturas e a oficina de restauração, onde são demonstrados os processos de recuperação dos instrumentos.
Com agendamento prévio, o museu pode ser conhecido de terça a sábado, com duração média entre 1h15 a 1h30 cada visita. O ingresso custa R$ 55, com gratuidade para crianças de até 6 anos. Instituições de ensino e organizações sociais têm acesso diferenciado mediante acordo com Resende.
Piano é uma paixão
Trabalhar com pianos não é apenas uma ocupação ou um projeto profissional para o fundador da Casa. Ali, está sua verdadeira paixão. Ele não apenas toca, como afina meticulosamente cada instrumento, sendo autorizado e certificado pela Yamaha para isso. Conhece a história, a evolução e os detalhes dos mais diferentes pianos. Explica tanto os aspectos externos, relacionados ao som, quanto os internos, detalhando cada peça e seu funcionamento.
Seu apreço não ficou restrito apenas à Brasília. Sua dedicação foi contemplada por grandes nomes da música nacional. Já tocaram nos pianos do museu artistas como Hermeto Pascoal, Chico Buarque, Vanessa da Mata, Arnaldo Batista (Mutantes), Arnaldo Antunes, Bianca Gismonti, Cristian Budu e outros. Além dos brasileiros, estrelas internacionais também compartilharam dessa paixão: Dionne Warwick, Diana Krall e Rick Wakeman (Yes).
Outros grandes músicos já passaram pelo Museu, como Milton Nascimento, Toninho Horta, Flávio Venturini, Virginia Hogan, Ivan Lins, Maria Rita e Zizi Possi.
Piano é percussão?
Ao longo da visita, Resende vai contando sobre a história do instrumento que iniciou com o cravo, por volta do ano 1.300 da Era Comum (E.C.). Tido por ele como "o avô de todos", a particularidade do cravo é a falta de dinâmica. "Independentemente de se bater forte ou fraco nas teclas, o som sairá no mesmo volume", explicou.
Já no século 15, surge o clavicórdio. Diferentemente do cravo, que não permite variação de intensidade sonora, o clavicórdio possibilita o controle de dinâmica, já que a força aplicada à tecla influencia diretamente a vibração das cordas, que são acionadas por um mecanismo de impacto.
Por volta de 1.700, surge o piano, que, assim como o clavicórdio, é um cordofone (instrumentos em que o som é produzido a partir da vibração de cordas) cujo mecanismo é percussivo e o impacto sobre as cordas permite variações de intensidade sonora.
Resende comentou uma curiosidade sobre a nomenclatura deste último e que tem a ver com sua sonoridade. Em italiano, "piano" quer dizer baixo ou suave. "A expressão brasileira 'fica pianinho' também compartilha dessa origem na palavra italiana", relembrou ele.
Inicialmente, o instrumento era chamado de "pianoforte" justamente por essa variação dos sons que poderia ser obtida a depender da força de acionamento das teclas. Com o tempo, o nome foi simplificado ao que conhecemos hoje.
Todas as formas
No museu, podem ser vistos os mais diferentes modelos que compõem a história da música. Quem assistia a filmes de faroeste pode se lembrar das pianolas. Nelas, ao acionar os pedais na parte inferior, as músicas gravadas eram tocadas sem que fosse preciso apertar as teclas.
Posteriormente, com o advento da energia elétrica, foram criados modelos que tocavam sozinhos. Bastava apenas ligar as alavancas. Ironicamente, mesmo com a automatização, pianolas desse tipo necessitam de umidade para produzir os sons. "Em épocas de seca, o ar vaza e nenhum som acaba sendo produzido. Não é um instrumento feito para Brasília", comentou Resende.
Lá, pode ser conferida também a "casinha de cachorro". Segundo o pianista, há relatos de que o modelo teria sido criado para acomodar um cão específico sob o instrumento, já que a raça, de acordo com a tradição, apreciaria o som do piano.
Para além dos modelos de verdade, a maior variedade de pianos pode ser conferida na coleção de miniaturas. As mais de 2,3 mil peças foram doadas por uma professora mineira que, durante 27 anos, viajou pelo mundo e tudo que encontrava alusivo ao instrumento, comprava.
Há miniaturas de todos os tipos. Algumas representam santos católicos tradicionalmente ligados à música. Outras, simbolizam ícones da cultura pop, como Snoopy & Charlie Brown, Betty Boop e Os Smurfs. A criatividade não tem limites nessa coleção. Há versões para crianças, simulando pedras preciosas e até feitas de crochê.
Apesar de o conjunto ultrapassar os milhares, ficam em exposição pouco mais de 600 itens devido ao espaço proporcionado. Segundo Resende, algumas propostas estão sendo estudadas para colocar a mostra no Guinness Book, "Dificilmente, alguém possui uma coleção tão numerosa e diversificada quanto a que temos aqui".
Pianista ou inventor?
Trabalhar com a manutenção dos pianos é uma profissão cada vez mais rara. Resende diz que poucas pessoas no mundo têm o conhecimento e os meios para restaurar instrumentos como fazem no museu. Os agradecimentos expressos em uma carta enviada pela embaixada estadunidense, que enviou um pedido diretamente a ele, confirmam esse fato.
Além da escassez de profissionais especializados, a obtenção de máquinas adequadas também é um desafio. Porém, isso pode até ser problema, mas, para Resende, foi uma provocação a ser superada.
De mente irrequieta, como ele mesmo se define, ele não é apenas um pianista, mas também um inventor. Se a falta de equipamentos era o entrave, Resende decidiu desenvolver as próprias ferramentas.
Com um motor de máquina de costura, uma cremalheira de portão e outros itens, ele criou uma máquina para trabalhar nas cordas do piano. Com a direção hidráulica de um Peugeot, um reservatório de Citröen e um comando de trator, ele desenvolveu um dispositivo que tira o instrumento do chão e o muda para uma posição de trabalho.
"Eu sou analógico. Logo que vejo uma situação, busco maneiras de pensar em ferramentas ou desenvolver soluções, também analógicas, para resolvê-la", explicou o pianista que costuma ir a ferros velhos para buscar peças para suas criações.
A cobertura completa da visita, com vídeos e instruções de como chegar ao Museu, você pode conferir nas redes sociais do Correio da Manhã: @correiodamanhabr.
