Concessão começa a reverter passivos históricos no abastecimento de água do Rio

Investimentos, tecnologia e gestão reorganizam um sistema marcado por décadas de deficiências

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O sistema de abastecimento de água do Rio de Janeiro avança em um processo consistente de recuperação. Após décadas marcadas por redes antigas, falta de manutenção, fornecimento instável e elevados índices de perdas, investimentos em infraestrutura, tecnologia e gestão passaram a atacar gargalos históricos que comprometeram a eficiência do serviço em dezenas de municípios fluminenses. Esse movimento já se traduz em ganhos graduais de regularidade e estabelece bases mais sólidas para a universalização do saneamento no estado.

Esses avanços estão associados ao modelo de concessão iniciado em novembro de 2021, quando a Águas do Rio assumiu a operação dos serviços de água e esgoto em 27 cidades, atendendo cerca de 10 milhões de pessoas. Desde então, R$ 5,1 bilhões foram aplicados na reestruturação de um sistema que, segundo especialistas, operava acima do limite havia décadas.

Ao assumir, a empresa do grupo Aegea Saneamento encontrou índices de perdas que chegavam a 65% em algumas regiões, resultado da combinação entre vazamentos em redes antigas e ligações irregulares. A reversão desse cenário tornou-se um dos principais eixos da atuação, com a meta de reduzir o indicador para 25% até 2031, em linha com os parâmetros do Marco Legal do Saneamento.

O impacto mais perceptível desse avanço aparece diretamente na rotina da população. Ao longo dos últimos quatro anos, 621 mil fluminenses passaram a receber água tratada e regularizada pela primeira vez. Em muitos casos, a chegada da conta de água se tornou o primeiro comprovante de residência das famílias, abrindo caminho para o acesso a direitos essenciais.

O impacto social da água regularizada

É nesse contexto que histórias individuais ajudam a dimensionar o alcance das mudanças. Em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, a moradora Vanessa de França, de 43 anos, conseguiu cadastrar sua residência na Tarifa Social durante uma ação itinerante realizada no Morro do Amor. Além do benefício na conta de água, ela obteve, pela primeira vez, um comprovante de residência em seu nome, documento essencial para resolver pendências cotidianas.

"Eu precisava desse comprovante para destravar tudo o que estava parado: abrir conta no banco, acessar benefícios e até fazer a matrícula dos meus filhos. Esperei muito por essa oportunidade e, quando consegui, foi um alívio enorme", relatou.

A ampliação do acesso ao serviço está diretamente ligada à política tarifária adotada desde o início da concessão. De 2021 para cá, o número de beneficiários da Tarifa Social cresceu 110%, alcançando cerca de dois milhões de pessoas. O desconto nas contas representa um alívio concreto para famílias em situação de vulnerabilidade e reforça o saneamento como ferramenta de saúde pública, dignidade e redução das desigualdades.

Esse avanço é viabilizado pelo mecanismo do subsídio cruzado, pilar do modelo de concessão. Na prática, regiões com maior capacidade de pagamento ajudam a financiar investimentos e tarifas mais acessíveis em áreas de menor renda, permitindo que o sistema funcione de forma integrada e equilibrada.

Investimento bilionário contra as perdas

A estratégia de expansão do abastecimento prioriza o uso mais eficiente da água já disponível, com foco na redução de perdas e no aprimoramento da distribuição. A substituição de redes antigas, a automação das operações e a modernização de equipamentos vêm ampliando a regularidade do fornecimento em áreas centrais e periféricas da capital, além da Região Metropolitana e do interior. A instalação de sistemas de bombeamento, os chamados boosters, tem sido decisiva para levar água com pressão adequada a regiões elevadas e às extremidades da rede, um desafio histórico do abastecimento fluminense.

Somente nas ações de combate às perdas de água tratada por vazamentos, os investimentos somam R$ 1,9 bilhão desde 2021. Tecnologias avançadas passaram a integrar a operação, incluindo dispositivos que ajustam automaticamente a pressão conforme a demanda e o uso de um satélite capaz de identificar a presença de cloro no subsolo, permitindo localizar vazamentos ocultos com alta precisão. O mesmo equipamento já foi utilizado em missões espaciais voltadas à busca por água em Marte e passou a ser aplicado no Rio de Janeiro para enfrentar perdas invisíveis à superfície. Essas iniciativas devolveram cerca de 18 bilhões de litros de água ao sistema apenas no último ano.

"Os avanços registrados até agora indicam que a concessão começa a corrigir passivos acumulados por décadas no saneamento fluminense. Embora os desafios ainda sejam relevantes, os resultados apontam que investimento contínuo, gestão qualificada e uso estratégico de tecnologia podem transformar um serviço essencial em vetor de saúde, desenvolvimento social e fortalecimento econômico local", afirma Sinval Andrade, diretor Institucional da Águas do Rio.

Toda essa operação em campo é sustentada por um sistema de monitoramento permanente. O Centro de Operações Integradas (COI), considerado o maior do setor de saneamento da América Latina, acompanha em tempo real a produção, a distribuição de água, o tratamento de esgoto e os indicadores de qualidade. A estrutura monitora mais de 1,5 mil unidades automatizadas, organiza cerca de 12 mil ordens de serviço diariamente e funciona 24 horas por dia.