Brasil terá maior tarifa dos EUA na América do Sul, aponta estudo

Levantamento indica que produtos brasileiros terão a maior tarifa efetiva da América do Sul após entrada em vigor das novas medidas anunciadas pelo governo norte-americano

Por Redação

Segundo a pesquisa, a tarifa efetiva média incidente sobre produtos brasileiros passará de 11,66% para 18,17%

O Brasil passará a registrar a maior tarifa efetiva aplicada pelos Estados Unidos entre os países da América do Sul a partir de 22 de julho, quando entram em vigor as novas medidas comerciais anunciadas pelo governo do presidente Donald Trump. A informação é de um levantamento do Global Trade Alert (GTA), centro independente de estudos sobre comércio internacional sediado na Suíça.

Segundo o estudo, a tarifa efetiva média incidente sobre produtos brasileiros passará de 11,66% para 18,17%. O percentual é inferior aos 25% anunciados oficialmente porque considera o peso de cada produto na pauta exportadora brasileira, além das exceções previstas nas novas regras.

Brasil liderará ranking de tarifas na América do Sul

Atualmente, o Brasil divide com o Uruguai uma tarifa média efetiva de 11,66%, ficando atrás apenas do Paraguai, cuja alíquota é de 12,92%.

Com a entrada em vigor das novas medidas, o Brasil passará a ocupar a primeira posição entre os países sul-americanos mais tarifados pelos Estados Unidos, enquanto os demais vizinhos continuarão sujeitos a percentuais inferiores, conforme os cálculos do Global Trade Alert.

Especialistas apontam fatores políticos e econômicos

Especialistas ouvidos por diferentes veículos avaliam que a decisão do governo norte-americano vai além das questões estritamente comerciais e reúne fatores políticos, econômicos, estratégicos e diplomáticos.

Para o professor da Universidade de Brasília (UnB) e ex-secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior, Carlos Pio, a política tarifária adotada por Donald Trump reflete uma estratégia de fortalecimento da indústria norte-americana, combinada com interesses políticos e geopolíticos.

Segundo o pesquisador, o posicionamento do Brasil em temas internacionais e o atual contexto das relações bilaterais também influenciam a adoção das medidas.

Relação com a China entra no cenário

O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Jan Marcel, avalia que o peso econômico do Brasil na América Latina e sua forte relação comercial com a China ampliam sua relevância na estratégia dos Estados Unidos.

De acordo com o especialista, o Brasil ocupa posição estratégica na disputa por influência econômica entre Washington e Pequim, tornando-se alvo de medidas que extrapolam o comércio bilateral.

Tarifas são vistas como instrumento de pressão

Para o advogado e especialista em comércio internacional Celso Figueiredo, da Fundação Getulio Vargas (FGV), as tarifas deixaram de cumprir apenas uma função econômica e passaram a integrar a estratégia política da política externa norte-americana.

Na avaliação do especialista, documentos divulgados pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) indicam que os fundamentos técnicos para parte das medidas são limitados, reforçando a percepção de que há também motivações políticas por trás das decisões.

Figueiredo ressalta, contudo, que o cenário tarifário ainda pode sofrer alterações, já que outras investigações comerciais conduzidas pelos Estados Unidos permanecem em andamento.

Governo brasileiro aposta em negociação

Após o anúncio das novas tarifas, o governo brasileiro classificou a medida como um retrocesso nas relações comerciais entre os dois países e afirmou que não há justificativa para a imposição unilateral das novas barreiras.

Apesar da possibilidade de adoção de medidas previstas na Lei da Reciprocidade Econômica, especialistas avaliam que a tendência é de continuidade das negociações diplomáticas para tentar reduzir os impactos das tarifas sobre as exportações brasileiras.

Na avaliação de analistas, a existência de uma lista de produtos isentos das novas tarifas também pode reduzir a necessidade de uma resposta comercial imediata por parte do Brasil.