Estudo aponta que ampliação do Bolsa Família elevou emprego
Pesquisa da FGV EPGE, Columbia e Stanford indica que reforma de 2012 aumentou o emprego formal, reduziu internações, diminuiu a mortalidade entre famílias em extrema pobreza e gerou queda nos custos hospitalares financiados pelo Estado.
A ampliação do Bolsa Família realizada em 2012 contribuiu para aumentar o emprego, reduzir internações hospitalares e diminuir a mortalidade entre famílias em situação de extrema pobreza. A conclusão está em estudo divulgado pelo National Bureau of Economic Research (NBER), elaborado pelos economistas Valdemar Pinho Neto, da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV EPGE), Michael C. Best, da Columbia University, e Felipe Lobel, da Stanford University.
A pesquisa avaliou os efeitos da reforma implementada em 2012, quando o governo federal, durante o Governo Dilma Roussef, criou um mecanismo para complementar a renda de beneficiários que permaneciam abaixo da linha de extrema pobreza mesmo após receberem os repasses do programa. O objetivo era garantir que essas famílias alcançassem um patamar mínimo de renda, reduzindo a vulnerabilidade econômica.
Sobre o estudo
O estudo foi publicado em março de 2026 como working paper do NBER e analisou uma das mudanças promovidas no Bolsa Família desde a criação do programa, em 2003. A investigação procurou identificar não apenas efeitos imediatos sobre a renda das famílias, mas também impactos em áreas como trabalho, saúde e gastos públicos.
Para isso, os pesquisadores utilizaram uma ampla base de dados administrativos. Foram cruzadas informações do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), da folha de pagamentos do Bolsa Família, da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), que reúne dados do mercado formal de trabalho, e do Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS).
A metodologia adotada comparou famílias situadas próximas ao limite que definia o acesso ao benefício complementar. Ao observar grupos posicionados imediatamente abaixo e acima da linha de extrema pobreza antes e depois da reforma, os autores conseguiram estimar os efeitos diretamente associados à ampliação do programa.
Emprego
Os resultados apontaram aumento de 4,8% no emprego entre os beneficiários contemplados pela mudança. Segundo os pesquisadores, a garantia de uma renda mínima pode reduzir dificuldades que comprometem a capacidade de procurar trabalho, manter uma rotina produtiva ou permanecer empregado.
O estudo reforça o conceito de inclusão produtiva, segundo o qual a proteção social pode funcionar como um instrumento para ampliar a participação econômica da população de baixa renda. Nesse contexto, a renda mínima atua como um fator que reduz restrições materiais e cria condições para a busca de oportunidades de trabalho.
Necessidades básicas
A análise sugere que a insegurança alimentar, a falta de recursos para transporte, a dificuldade de acesso a medicamentos e outros custos básicos podem limitar a inserção de pessoas em situação de pobreza no mercado de trabalho. Com uma renda mais estável, parte dessas barreiras tende a ser reduzida.
Saúde
Além dos impactos econômicos, a pesquisa identificou mudanças em indicadores de saúde. A mortalidade entre os beneficiários caiu 14%, resultado que corresponde a cerca de mil vidas preservadas, de acordo com as estimativas apresentadas pelos autores.
Também foi observada redução na utilização de serviços hospitalares. A probabilidade de internação diminuiu 8%, enquanto o tempo médio de permanência nos hospitais recuou 6%. Os dados indicam melhora nas condições de saúde de famílias que passaram a contar com maior proteção de renda.
O levantamento mostrou ainda queda entre 14% e 15% nos custos hospitalares financiados pelo Estado. Para os pesquisadores, esse resultado demonstra que políticas de transferência de renda podem produzir efeitos indiretos sobre as despesas públicas ao reduzir a necessidade de tratamentos hospitalares.
Ao detalhar as causas das internações, o estudo encontrou reduções em alguns grupos de doenças. As hospitalizações relacionadas à subnutrição caíram 38%, enquanto os casos associados a doenças infecciosas diminuíram 8%. As internações provocadas por complicações digestivas registraram queda de 9%.
Outro resultado observado foi o aumento de 50% nos gastos das famílias com medicamentos. A pesquisa sugere que o reforço da renda permitiu maior acesso a tratamentos e acompanhamento médico, contribuindo para evitar o agravamento de problemas de saúde.
Os autores destacam que os efeitos identificados ajudam a compreender como políticas de combate à pobreza podem influenciar diferentes aspectos da vida das famílias. Embora o objetivo principal da reforma fosse elevar a renda dos beneficiários mais pobres, os resultados mostraram melhorias em áreas que vão além do consumo imediato.
Sobre o Bolsa Família
Atualmente, o Bolsa Família atende mais de 19 milhões de famílias em todo o país, alcançando 49,5 milhões de pessoas. O programa é voltado a famílias de baixa renda inscritas no Cadastro Único e representa a principal política de transferência de renda do governo federal. Em maio de 2026, os repasses somaram R$ 12,9 bilhões, com benefício médio de R$ 678 por família.