Endividamento das famílias atinge maior nível da série da FGV e IDC chega a 0,94 em 2026

ndice de Desconforto de Crédito da FGV EAESP mede pressão do crédito sobre o orçamento das famílias e registra alta após 0,67 no Desenrola e 0,9 no pós-pandemia

Por Andre Souza

Índice de Desconforto de Crédito (IDC) atingiu o maior nível da série histórica

Um estudo do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgado na semana passada analisa o comportamento do crédito das famílias brasileiras por meio do Índice de Desconforto de Crédito (IDC).

O indicador foi construído com base em séries mensais do Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central do Brasil e acompanha a relação entre crédito e orçamento das famílias ao longo do tempo. A série histórica começou em janeiro de 2014.

Como o índice é formado?

O IDC é formado por três componentes. O primeiro é o comprometimento de renda com dívidas, que mostra quanto da renda mensal das famílias é usado para pagar empréstimos e financiamentos. O segundo é a inadimplência, que mede os atrasos no pagamento dessas dívidas. O terceiro é a qualidade do crédito, que considera o tipo de empréstimo usado pelas famílias, com mais peso para modalidades mais caras, como cartão de crédito rotativo e empréstimos pessoais não consignados. Depois de reunir esses três elementos, o índice transforma os dados em uma escala comum e calcula um valor único pela média simples entre eles.

A metodologia do IDC usa dados mensais do Banco Central. Antes de formar o índice, cada um dos três componentes é ajustado para ficar em uma mesma escala de comparação. Depois disso, o resultado final é obtido pela média simples entre comprometimento de renda, inadimplência e qualidade do crédito. Cada um desses fatores tem o mesmo peso no cálculo.

Histórico

Na série histórica, o menor nível do IDC aparece durante a pandemia. O indicador chega a 0,02, que é o menor valor registrado no período analisado. Nesse momento, houve queda ao mesmo tempo no comprometimento de renda, na inadimplência e no uso de crédito mais caro, o que explica o nível mais baixo do índice.

Depois da pandemia, o IDC passa a subir de forma mais forte. O indicador alcança 0,9, que corresponde a 90% do maior nível já observado na série histórica. Esse aumento acontece porque as famílias passam a comprometer mais renda com dívidas, a inadimplência cresce e aumenta o uso de modalidades de crédito mais caras dentro do total contratado.

O estudo também mostra o efeito do programa Desenrola, criado em 2023 para renegociação de dívidas. Durante o período em que o programa estava em funcionamento, o IDC cai para 0,67. Esse número fica abaixo do nível de 0,9 observado no período pós-pandemia, mas ainda acima do mínimo de 0,02 registrado na pandemia. Depois do fim do programa, em 2024, o indicador volta a subir.

Em janeiro de 2026, o IDC atinge 0,94, que é o maior nível da série histórica desde 2014. Esse valor corresponde a 94% do ponto máximo do indicador. Ele fica acima dos 0,9 registrados no período pós-pandemia e também acima dos 0,67 observados durante o Desenrola.

A série histórica permite comparar diferentes fases do crédito das famílias brasileiras ao longo de mais de uma década. Entre 2014 e 2026, o índice varia de 0,02 na pandemia, passa por 0,9 no período pós-pandemia, recua para 0,67 durante o Desenrola e chega a 0,94 em janeiro de 2026. Esses números mostram a evolução do endividamento e da pressão do crédito no orçamento das famílias ao longo do tempo.

Novo Desenrola

Antes da divulgação do estudo pela FGV, o  governo federal criou uma segunda edição do Desenrola  para ajudar famílias endividadas a renegociar dívidas em atraso com condições facilitadas.

O programa foi instituído pela Medida Provisória nº 1.355, de 4 de maio de 2026, está vinculado ao Ministério da Fazenda e conta com a participação da CAIXA.

A iniciativa permite consolidar débitos em uma única operação de crédito, com juros de 1,99% ao mês, prazo de pagamento entre 12 e 48 meses e parcela mínima de R$ 50. O programa atende pessoas físicas com renda mensal de até cinco salários mínimos, desde que tenham contratos de crédito firmados até 31 de janeiro de 2026 e parcelas em atraso entre 91 e 720 dias.

A CAIXA informou que os descontos podem chegar a 90% do valor da dívida, dependendo da análise de crédito e das regras vigentes. O objetivo do programa é reduzir o endividamento das famílias e facilitar a reorganização financeira dos consumidores.

Em entrevista coletiva, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, informou que, até 20 de maio, mais de 1 milhão de pessoas foram beneficiadas pelo Desenrola 2.0. Foram 449 mil dívidas quitadas à vista com desconto médio de 85%, reduzindo R$ 1 bilhão para R$ 154 milhões. Outras 685,5 mil dívidas foram refinanciadas. No Financiamento Estudantil (Fies), 34 mil contratos foram renegociados com desconto médio de 80%.