Contas externas pioram em março, mas Brasil segue protegido por reservas e investimento estrangeiro

Déficit em transações correntes somou US$ 64,3 bilhões (R$ 321,5 bilhões), o equivalente a 2,71% do Produto Interno Bruto (PIB)

Por Andre Souza

Presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo

As contas externas do Brasil pioraram em março, mas ainda sem sinal de risco imediato para a economia. Dados divulgados pelo Banco Central mostram déficit em transações correntes de US$ 6 bilhões (R$ 30 bilhões) no mês, acima do resultado negativo de US$ 2,9 bilhões (R$ 14,5 bilhões) registrado em março de 2025. Mesmo com a piora, o país segue amparado por reservas internacionais elevadas e pela entrada de investimento estrangeiro direto. Esses valores consideram cotação aproximada de R$ 5,00 do dólar.

Nos 12 meses encerrados em março, o déficit em transações correntes somou US$ 64,3 bilhões (R$ 321,5 bilhões), o equivalente a 2,71% do Produto Interno Bruto (PIB). O nível ainda é considerado administrável, principalmente porque o Brasil continua recebendo recursos externos de longo prazo.

Exportações x Importações

A principal mudança em relação ao ano passado veio da balança comercial. O saldo positivo de bens caiu de US$ 7,2 bilhões (R$ 36 bilhões) para US$ 5,6 bilhões (R$ 28 bilhões). As exportações cresceram 9,5%, chegando a US$ 31,7 bilhões (R$ 158,5 bilhões), mas as importações avançaram ainda mais, 19,9%, e somaram US$ 26,1 bilhões (R$ 130,5 bilhões).

Gastos com serviços

Também pesaram no resultado os gastos com serviços. O déficit nessa conta subiu para US$ 4,8 bilhões (R$ 24 bilhões), puxado por maiores despesas com viagens internacionais, tecnologia, transporte e uso de propriedade intelectual.

Lucros enviados pra fora

Outro fator de pressão foi a conta de renda primária, que inclui remessas de lucros, dividendos e juros ao exterior. O déficit chegou a US$ 7,4 bilhões (R$ 37 bilhões) em março, acima dos US$ 6,3 bilhões (R$ 31,5 bilhões) de um ano antes.

Investimento estrangeiro

Apesar disso, o investimento direto no país continuou forte. Entraram US$ 6 bilhões (R$ 30 bilhões) em março e US$ 75,7 bilhões (R$ 378,5 bilhões) no acumulado de 12 meses, o equivalente a 3,18% do PIB. Como esse valor supera o déficit externo, o país depende menos de capital de curto prazo.

Reservas internacionais

As reservas internacionais fecharam março em US$ 362 bilhões (R$ 1,81 trilhão), mesmo após queda no mês. Esse volume é visto como uma proteção importante em momentos de instabilidade no câmbio ou no mercado global.

Para o professor de Economia do Ibmec Brasília, Renan Silva, essa piora no cenário externo merece atenção, mas ainda não configura um risco imediato para a economia brasileira. "O déficit em transações correntes praticamente dobrou em relação ao ano anterior porque as importações cresceram mais do que as exportações, e porque houve um aumento significativo tanto nos gastos com serviços quanto nas remessas de lucros para o exterior. E que esse movimento está  ligado ao ciclo global " - explicou.

"O déficit acumulado em 12 meses — equivalente a 2,71% do PIB — permanece em um nível administrável, considerando padrões internacionais. Países começam a sentir maior vulnerabilidade quando ultrapassam a faixa de 4% a 5%. Além disso, vale reforçar que o Investimento Direto no País continua robusto, superando o próprio déficit externo e reduzindo a dependência de capital volátil. Da mesma forma, as reservas internacionais, atualmente acima de US$ 360 bilhões, funcionam como um seguro importante contra choques externos." - completa Silva.