Agronegócio lidera os pedidos de recuperação judicial no Brasil

Dados da Serasa Experian revelam que o agro concentrou 30,1% das recuperações judiciais em 2025

Por Andre Souza

Na contramão do resto do país, o Centro-Oeste deverá ser a única região a exibir trajetória de aceleração da atividade este ano. Neste caso, o 'carro-chefe' da região seria representado pelo agronegócio, uma vez que a previsão da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) é de uma safra de grãos 2024/2025 recorde, com volume estimado em 322,25 milhões, o que corresponde a uma alta de 8,1%, ante à edição anterior. Na sequência do ranking, a região Norte, com evolução de 2,7%. Nordeste (2% de avanço), Sul (1,8%) e Sudeste (1,6%).

O agronegócio brasileiro, tradicionalmente associado ao crescimento econômico e ao superávit da balança comercial, passou a liderar os pedidos de recuperação judicial no país em 2025. Levantamento da Serasa Experian aponta que o setor respondeu por 30,1% das solicitações registradas no período, superando áreas como comércio, serviços e indústria.

O avanço dos pedidos está relacionado à combinação de fatores que pressionaram a atividade rural nos últimos anos. Eventos climáticos adversos, como estiagens prolongadas e irregularidade de chuvas, afetaram a produtividade em diferentes regiões agrícolas. Ao mesmo tempo, a valorização do dólar elevou o custo de insumos importados, especialmente fertilizantes e defensivos, enquanto o crédito mais caro aumentou o peso do endividamento.

Grande parte da produção agrícola opera com financiamento antecipado, baseado em projeções de safra e preços futuros das commodities. Quando ocorrem perdas produtivas ou oscilações negativas no mercado internacional, produtores e empresas permanecem com obrigações financeiras elevadas, o que compromete o fluxo de caixa e dificulta o cumprimento de contratos.

Nesse cenário, a recuperação judicial tem sido utilizada como instrumento legal para reorganização financeira, permitindo a suspensão temporária de cobranças e a renegociação de dívidas com credores. O mecanismo busca preservar a continuidade da atividade econômica e evitar falências, mas também gera impactos diretos na cadeia produtiva.

Fornecedores de insumos, instituições financeiras, transportadoras e trabalhadores podem ser afetados pela reestruturação das dívidas, já que os pagamentos passam a seguir novas condições aprovadas judicialmente. O aumento dos processos também amplia a demanda do Judiciário por decisões envolvendo contratos rurais, garantias vinculadas à produção e particularidades do calendário agrícola.

Para o advogado especialista em agronegócio, Juliano Quelho, o pedido de recuperação judicial não significa  'erro de gestão' por parte dos produtores rurais. Para ele, ocorre o "esgotamento" de um modelo financeiro que ignora a natureza da atividade rural. "A recuperação Judicial no agro é um remédio amargo e deve ser sempre o último recurso. Ela não é uma escolha estratégica, mas um grito de sobrevivência diante de uma crise de liquidez em cascata. O problema central não é a falta de competência, mas a estratégia predatória dos bancos, que capturam a margem do produtor ao cobrar juros de mercado em créditos que deveriam ser regulados e limitados por lei" - opina.

Como evitar

Para Quelho, a saída para evitar o colapso deveria ser o alongamento da dívida bancária e a revisão dos contratos, conforme previsto em lei. "O crédito rural precisa respeitar a capacidade de produção da fazenda. No entanto, o que vemos há décadas é o oposto: em momentos de perda de safra, os bancos renegociam aumentando juros e exigindo mais garantias. Isso transforma o produtor em um 'peão da dívida', sufocado por um sistema que deveria financiá-lo, mas acaba por inviabilizá-lo." - completa.