Redução da jornada pode elevar preços em 6,2%, diz estudo da CNI
Simulação da indústria indica impactos sobre bens e serviços e aumento de custos produtivos
A redução da jornada semanal de trabalho no Brasil pode provocar aumento médio de 6,2% nos preços de bens e serviços, segundo estudo divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A entidade analisou os impactos econômicos de uma eventual diminuição da carga horária sem redução proporcional de salários, proposta que vem ganhando espaço no debate político e no Congresso Nacional.
De acordo com a CNI, "a diminuição das horas trabalhadas elevaria o custo da mão de obra por hora, obrigando empresas a reorganizar turnos, contratar novos funcionários ou pagar horas extras para manter os níveis atuais de produção. Esse movimento aumentaria despesas operacionais e tenderia a gerar repasses ao consumidor final, com efeitos disseminados por toda a cadeia produtiva".
A simulação realizada pela entidade indica que os produtos industriais poderiam registrar alta próxima de 6%. Roupas e calçados teriam aumento de até 6,6%, enquanto o setor de serviços poderia sofrer reajustes médios de 6,5%. Serviços de internet e telecomunicações aparecem entre os mais impactados, com elevação estimada de até 7,2%. Já alimentos e itens comercializados em supermercados poderiam subir, em média, 5,7%. "A consequência da elevação do custo do trabalho será o aumento generalizado dos preços da economia e afetará a vida de todos os brasileiros. As empresas não enfrentarão apenas o aumento do custo direto com mão de obra, mas os insumos também deverão ter seus preços reajustados, considerando que a redução do limite das horas trabalhadas afeta toda a cadeia produtiva", afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban.
Segundo a entidade, "a indústria tende a ser um dos segmentos mais sensíveis à mudança devido à necessidade de manter linhas produtivas contínuas e à menor flexibilidade operacional em comparação com outras atividades econômicas. A reorganização das jornadas poderia exigir investimentos adicionais e ajustes logísticos, ampliando custos estruturais".
Tramitações no Congresso
No Congresso Nacional, a redução da jornada de trabalho ainda está em fase de debate e tramitação, sem votação final definida. Propostas diferentes avançam simultaneamente na Câmara dos Deputados e no Senado, incluindo mudanças na escala 6x1 e a diminuição da carga semanal para 40 ou até 36 horas, sem redução salarial. Enquanto parlamentares discutem textos por meio de propostas de emenda à Constituição e projetos de lei, o governo federal também prepara uma proposta própria para unificar o tema. Por envolver alterações constitucionais, qualquer mudança ainda precisará passar por várias etapas de análise e aprovação antes de entrar em vigor.
A proposta que mais avançou nas discussões é a PEC 148/2015, no Senado, que reduz gradualmente a jornada semanal de 44 para 36 horas e já foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), aguardando votação no plenário da Casa. Na Câmara, a proposta da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) é a PEC 8/2025, que prevê o fim da escala 6x1 e a adoção de uma jornada de quatro dias de trabalho por três de descanso (4x3), com limite de 36 horas semanais sem redução salarial, e atualmente está em análise na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, ainda na fase inicial de tramitação.
Defensores da proposta argumentam que a medida pode melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, reduzir o desgaste físico e mental e estimular a geração de empregos. Já representantes do setor produtivo alertam para riscos de perda de competitividade, aumento de custos e efeitos inflacionários.
A CNI acompanha os projetos em tramitação no Legislativo que tratam da redução da jornada semanal e mudanças em modelos como a escala 6x1. Para Alban, o debate precisa ser conduzido com maior profundidade técnica e participação ampla da sociedade e dos setores produtivos.
"A discussão da escala 6x1 é legítima e necessária, mas qualquer decisão dessa dimensão deve levar em conta a avaliação de impacto e seus efeitos econômicos. A produtividade no Brasil ainda está muito aquém de países semelhantes e há escassez de mão de obra. Por isso, ainda não é hora de reduzir a escala", destacou o presidente da entidade.