Estudo de economistas questiona tese de pleno emprego no Brasil

Pesquisa aponta que baixa taxa de desemprego não significa pleno emprego e destaca informalidade e subutilização como entraves estruturais do mercado de trabalho brasileiro.

Por Andre Souza

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Apesar das baixa taxa de desemprego no país, o Brasil ainda está distante de uma situação de pleno emprego, segundo estudo dos economistas Arthur Welle, Carolina Trancoso Baltar, Guilherme Madcaretti Proença e Marcelo Manzano, publicado em dezembro de 2025, pela Fundação Friedrich Ebert Stiftung (FES) em parceria com pesquisadores do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT), do Instituto de Economia da Unicamp. A análise revisita o conceito econômico de "pleno emprego" e aponta limites na aplicação direta dessa ideia à realidade brasileira.

Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a taxa de desocupação ficou em 5,8% no trimestre móvel encerrado em fevereiro de 2026, após ter atingido 5,4% no trimestre encerrado em janeiro, o menor nível da série histórica iniciada em 2012. A taxa de desemprego é calculada pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua com base na média de três meses consecutivos — neste caso, dezembro de 2025 a fevereiro de 2026 —, já que o instituto não divulga resultados mensais isolados. Mesmo com a leve alta recente, o indicador permanece em patamar historicamente baixo.

Sobre o estudo

O taxa de desemprego do trimestre passado, de 5,4%, indicava cerca de 5,9 milhões de pessoas desocupadas no período encerrado em janeiro, refletindo a melhora do mercado de trabalho no início de 2026 — cenário que serve de base empírica para a discussão apresentada pelos pesquisadores.

Mesmo com o indicador em níveis reduzidos, os autores afirmam que "a taxa de desemprego, isoladamente, não é suficiente para indicar um mercado de trabalho plenamente aquecido". Segundo o estudo, "a avaliação precisa considerar fatores como informalidade, subutilização da força de trabalho e qualidade das ocupações".

Os pesquisadores destacam que "parte relevante dos trabalhadores permanece em postos informais, com jornadas reduzidas ou renda instável, o que revela a existência de capacidade ociosa no mercado laboral". A publicação mostra que, "embora o desemprego aberto tenha recuado nos últimos anos, indicadores mais amplos ainda apontam fragilidades estruturais". Entre esses fatores está a taxa de subutilização da força de trabalho, que inclui pessoas que gostariam de trabalhar mais horas ou que desistiram temporariamente de procurar emprego.

O estudo “Pleno emprego: entre a teoria e a realidade brasileira” confronta conceitos clássicos da teoria econômica com características históricas do mercado de trabalho nacional, como elevada rotatividade, desigualdade ocupacional e forte presença da informalidade.

Na avaliação dos pesquisadores, essas condições dificultam a comparação direta do Brasil com economias desenvolvidas, onde o conceito foi originalmente formulado. Para os autores, "a melhora recente dos indicadores não elimina vulnerabilidades estruturais e reforça a necessidade de indicadores mais amplos para orientar diagnósticos econômicos e decisões de política pública".