IBGE: Varejo perde tração e reforça sinais de desaceleração da economia

Desempenho fraco do varejo indica consumo menor, o que pode favorecer queda de juros.

Por Andre Souza

Consumo menor pode favorecer queda da taxa de juros

Os dados mais recentes da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o varejo brasileiro segue crescendo, porém em ritmo bem mais lento e sem força suficiente para indicar uma retomada consistente do consumo.

Em janeiro de 2026, o varejo restrito — que inclui somente o comércio de bens, como lojas e supermercados — registrou alta de 0,4% na comparação com o mês anterior, e o varejo ampliado — que engloba também veículos, material de construção e combustíveis — cresceu 0,9%. Apesar de positivos, esses resultados apenas interrompem dois meses consecutivos de desempenho mais fraco e não apontam uma aceleração clara da atividade comercial.

Na comparação com janeiro de 2025, o varejo restrito teve alta de 2,8%, e o ampliado avançou 1,1%. Contudo, parte desse crescimento está concentrado em segmentos menos sensíveis ao ciclo econômico, como supermercados e artigos farmacêuticos — setores que tradicionalmente continuam a crescer mesmo quando a economia geral perde fôlego.

Por outro lado, segmentos mais ligados ao comportamento de renda das famílias já mostram sinais de enfraquecimento. Vendas de combustíveis, livros e papelaria, assim como de equipamentos de informática, registraram retrações no período analisado, com o setor de informática sofrendo queda próxima a 10%. Esses movimentos refletem um consumidor mais seletivo, que prioriza gastos essenciais e adia compras de bens de maior valor ou menos urgentes.

Quando se observa o desempenho acumulado em 12 meses, a desaceleração fica mais evidente. O crescimento do varejo restrito diminuiu de 1,9% para 1,6%, enquanto o varejo ampliado praticamente estacionou, com variação próxima de zero. Esse resultado é significativo porque o varejo ampliado inclui segmentos como veículos, motos e material de construção — atividades  dependentes de crédito e da confiança dos consumidores. A perda de ritmo nesses setores tende a refletir condições financeiras mais apertadas e menor disposição das famílias de assumir novos compromissos de consumo.

Segundo a FecomercioSP, o cenário econômico atual, com crédito ainda caro, crescimento limitado da renda e maior cautela dos consumidores, deve manter o consumo em ritmo moderado ao longo de 2026. Nesse contexto, a Federação destaca que "a forma de atuação dos empresários precisa estar ajustada à realidade de um mercado com menor dinâmica: planejamento financeiro rigoroso, gestão eficiente de estoques e estratégias comerciais mais assertivas tornam-se ainda mais relevantes para sustentar o desempenho das empresas do varejo".

A análise indica que o varejo brasileiro não parou de crescer, mas perdeu tração. Desempenho fraco do varejo indica consumo menor, o que pode favorecer a queda de juros na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) nesta terça(17) e quarta-feira(18).