Mulheres chefiam 52% dos lares, mas ganham 20,9% a menos que os homens
Ao considerar as mulheres negras a disparidade aumenta: a diferença salarial chega a quase 50%
Apesar de 41 milhões de lares brasileiros (52%) serem chefiados por mulheres, elas ganham 20,9% a menos que os homens. Ao considerar as mulheres negras essa disparidade aumenta para 47,5%. De acordo com o 3º Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios de 2025, ano-base 2024, as mulheres ocupadas aumentaram de 38,8 milhões em 2015 para 44,8 milhões (6 milhões) em 2024 e os homens de 53,5 milhões para 59 milhões (5,5 milhões) em igual período de 2024. Ou seja, a participação das mulheres no mercado de trabalho aumentou, mas a desigualdade salarial ainda persiste.
Para a conclusão do balanço, foram pesquisados 53.014 estabelecimentos com 100 ou mais empregados(as) com base no do Relatório Anual de Informações Sociais (Rais) de 2024. Foram analisados 19 milhões de vínculos. Os dados de 2026, que levam em conta o ano anterior (2025), ainda não foram divulgados.
Ainda conforme a pesquisa, na remuneração média os homens ganham R$ 4.745,53 e as mulheres R$ 3.755,01. Já quando se trata de mulheres negras, o salário médio fica em R$ 2.864,39, valor ainda mais distante em relação a homens não negros - cuja média é de R$ 6.033,15 - quando comparado com relatórios anteriores.
“A inserção das mulheres no mercado de trabalho cresceu ao longo dos anos. Porém, esse crescimento não acompanha os salários das mulheres que exercem as mesmas funções que os homens”, ressalta o secretário executivo do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), Francisco Macena. Caso as mulheres ganhassem igual aos homens na mesma função, R$ 95 bilhões teriam entrado na economia em 2024, aponta o relatório.
Segundo a subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do ministério, Paula Montagner, a porcentagem da massa de todos os rendimentos do trabalho das mulheres, entre 2015 e 2024, variou de 35,7% para apenas 37,4%.
"Essa relativa 'estabilidade' decorre das remunerações menores das mulheres, uma vez que o número delas no mercado de trabalho é crescente”, argumenta Paula.
Dados da Rais de 2024 apontam que a parcela de mulheres ocupadas aumentou para 40,6%, elevando o número de mulheres empregadas para 7,7 milhões. “A massa de rendimentos das mulheres é de 34,8% do total. Se fosse similar a sua parcela de empregadas (40,6%) a massa total seria expandida em R$ 95 bi (9% do total)”, afirma Paula.
O relatório aponta ainda que as mulheres diretoras e gerentes recebem 73,2% do salário dos homens. Já as profissionais em ocupação de nível superior recebem 68,5% do salário dos homens.
Já as trabalhadoras de serviços administrativos recebem 79,8% dos salários dos homens. Os estados como Acre, Santa Catarina, Paraná, Amapá, São Paulo e Distrito Federal têm as menores desigualdades salariais.
Caso concreto
A disparidade de salário foi o que fez a advogada Larissa Fideles, 37 anos de idade, moradora do Riacho Fundo, em Brasília, na capital federal, trocar de trabalho.
Ela conta que desistiu da advocacia e apostou no marketing para conciliar a maternidade e o trabalho. Mãe solo de uma menina de 6 anos, Larissa atualmente trabalha como Pessoa Jurídica (PJ) e presta serviços para uma empresa de marketing digital.
O "empurrãzinho" para mudar de carreira foi a diferença salarial em seu emprego anterior: "Trabalhava como CLT (com carteira assinada) em um curso preparatório para concurso público e constatei que um homem que exercia a mesma função que eu ganhava R$ 2 mil a mais", relata Larissa, que deixou a empresa em seguida.
Atualmente, Larissa trabalha de casa e tem como se dividir, sem sacrifícios, entre a pequena Helena e o trabalho online.
"Presto serviço para uma empresa de marketing digital como PJ, a conta da maternidade não fecharia se eu não trabalhasse em home office", explica a jovem, que é closer digital (especialista em vendas focado no fechamento de produtos de alto valor).
Renda per capita de um salário mínimo
O Censo 2022 apresenta números diferentes do relatório do ministério por incluir a informalidade mas, mesmo assim, mostra outra disparidade: a interseção entre racismo e sexismo, com mulheres negras sustentando a maioria dos lares de baixa renda.
As mulheres são responsáveis pela chefia de 49,1% dos lares brasileiros, o que representa cerca de 35,6 milhões de domicílios, segundo dados do Censo 2022. Esse cenário revela uma presença significativa de mulheres negras na condução das famílias no país.
Apesar do protagonismo na chefia dos lares, elas enfrentam maior vulnerabilidade econômica. Entre os domicílios chefiados por mulheres negras — incluindo aquelas que se declaram pardas —, cerca de 70% têm renda per capita de até um salário mínimo, concentrando os menores níveis de rendimento.
A desigualdade também se manifesta no mercado de trabalho. Aproximadamente 39% das trabalhadoras negras atuam na informalidade e uma em cada seis está empregada em atividades de serviços domésticos ou de limpeza, setores historicamente marcados por baixos salários e pouca proteção trabalhista.
Entre as famílias com filhos sob chefia feminina, a maioria é liderada por mulheres negras. Elas representam 62% desses lares, o que corresponde a cerca de 6,8 milhões de famílias.
A situação de vulnerabilidade se reflete ainda na segurança alimentar. A incidência de fome é mais elevada em lares chefiados por mulheres negras, que correspondem a 39,5% das famílias que enfrentam insegurança alimentar. Esse quadro evidencia as desigualdades estruturais que atravessam gênero, raça e renda no Brasil.
Lei sobre igualdade salarial
Em 3 de julho de 2023, foi sancionada a Lei nº 14.611, que aborda a igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre homens e mulheres no ambiente de trabalho, modificando o artigo 461 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
Empresas com mais de 100 empregados(as) devem adotar medidas para garantir essa igualdade, incluindo transparência salarial, fiscalização contra discriminação, canais de denúncia, programas de diversidade e inclusão e apoio à capacitação de mulheres. A lei foi uma iniciativa do Ministério do Trabalho e Emprego e do Ministério das Mulheres.