Desigualdade mantém 708 milhões de mulheres fora do mercado

Para especialistas, educação, inovação e espaços de decisão são mais impactados

Por Martha Imenes

Na tecnologia as mulheres correspondem a apenas 29% da força de trabalho global

No mundo, cerca de 708 milhões de mulheres permanecem fora da atividade econômica. O dado, divulgado pelo Panorama de Gênero 2025, elaborado pela ONU Mulheres em parceria com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, revela que a sobrecarga com o cuidado não remunerado e a escassez de tempo disponível continuam sendo barreiras para a participação feminina no mercado de trabalho.

Mesmo quando conseguem ingressar no mercado elas se concentram em ocupações de menor remuneração e enfrentam barreiras mais rígidas à progressão profissional. A desigualdade se torna ainda mais evidente no setor de tecnologia: apenas 29% da força de trabalho global é composta por mulheres, e somente 14% ocupam cargos de liderança.

O documento expõe que a desigualdade estrutural atravessa múltiplos campos: mercado de trabalho, tecnologia, liderança política, educação e cultura corporativa. Os números revelam que, apesar dos avanços, a equidade segue distante. Especialistas apontam que enfrentar o problema exige não apenas políticas públicas, mas também mudanças culturais profundas, capazes de transformar narrativas e práticas cotidianas.

O relatório alerta também para os impactos da Inteligência Artificial (IA). Segundo o estudo, 28% dos empregos femininos estão sob risco de automação, contra 21% entre os homens.

Para Clara Cecchini, especialista em aprendizagem e inovação, o avanço tecnológico não pode ser analisado isoladamente das assimetrias já existentes. "No Dia Internacional das Mulheres, a celebração de direitos e conquistas precisa dividir espaço com uma pergunta incômoda: que preço elas estão pagando pelo jeito que a Inteligência Artificial está sendo usada hoje", afirma.

Ela cita o artigo AI Doesn't Reduce Work - It Intensifies It, da Harvard Business Review, que sustenta que a tecnologia não diminui a carga, mas intensifica o ritmo e o volume de demandas. "Justiça de gênero, na era da IA, significa impedir que a eficiência digital se sustente à custa de exaustão invisível", completa.

Subrepresentação

A subrepresentação feminina também se reflete nos espaços de decisão. De acordo com a ONU Mulheres, em 1º de janeiro de 2025, apenas 27,2% das cadeiras nos parlamentos eram ocupadas por mulheres.

Para Fabiana Bertotti, a especialista em oratória, o dado revela um padrão estrutural. "Se as mulheres são metade da população do planeta, por que ocupam pouco mais de um quarto das cadeiras parlamentares? Isso não é coincidência, mas estrutura", pontua.

Ela lembra que o custo de se posicionar ainda recai de forma desproporcional sobre as mulheres. "A liderança exige firmeza, só que a firmeza feminina gera penalização social. O silenciamento tem custo financeiro. Treinar a nossa voz é um ativo", afirma.

A desigualdade também atravessa a educação. Segundo a ONU, 122 milhões de meninas estão fora da escola. Para Vitor Azambuja, CEO do projeto De Criança Para Criança (DCPC), enfrentar esse dado exige compreender e transformar narrativas.

O projeto estimula produções criadas por crianças, como animações e histórias, para circular no cotidiano da família e da comunidade. "A construção de uma sociedade mais justa começa com uma educação sólida desde a infância", diz Vitor. Ao tratar de histórias como a de Malala Yousafzai, o DCPC busca transformar referência em reflexão e ampliar a consciência sobre direitos e igualdade.

Cultura corporativa

No ambiente empresarial, a desigualdade também se manifesta. Para Vivian Rio Stella, pós-doutora em Linguística e idealizadora da VRS Academy, o reconhecimento simbólico não responde às tensões estruturais.

"Durante muito tempo, o Dia da Mulher foi tratado nas empresas como uma pausa simbólica, com flores e frases inspiradoras. O problema é que o mundo do trabalho não foi pensado para elas", observa.

Vivian defende que avançar exige deslocar a conversa do gesto para a cultura. "Talvez seja hora de nomear o óbvio que é evitado: as mulheres se realizam no trabalho não apesar de serem mulheres, mas porque trazem outras formas de pensar", afirma. Para ela, experiências que promovam linguagem, escuta e reflexão são fundamentais. "Conversa, no ambiente de trabalho, é matéria-prima de cultura", conclui.