Relatório do IFI aponta desafios para as contas públicas

Tesouro vê oportunidade em 2027, mas juros altos travam estratégia da dívida

Por Martha Imenes

Como órgão técnico dentro do Senado Federal desde 2016, o IFI trabalha de forma autônoma

O Instituto Fiscal Independente (IFI), ligado ao Senado, divulgou o Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 109, com uma radiografia das contas públicas brasileiras e os principais desafios para 2026. O documento aponta o que os brasileiros sentem no dia a dia: a taxa de juros alta (Selic) - atualmente em 15% ao ano - tem impacto direto no crescimento do país.

O documento destaca pontos críticos que afetam diretamente o cotidiano dos brasileiros, em especial a taxa Selic elevada (15% ao ano), que limita o crescimento econômico e aumenta o custo da dívida pública.

"O Brasil enfrenta uma combinação de juros altos e dívida crescente, o que restringe a capacidade de investimento público e privado. A política fiscal precisa ser consistente para reduzir a percepção de risco e permitir a queda sustentável da Selic", aponta Marcus Vinícius Caetano Pestana da Silva, diretor-executivo da IFI.

O documento mostra que o governo pretende manter estável, por enquanto, a emissão de títulos pós-fixados, mas reduzir gradualmente esse tipo de papel até 2035. O problema são os juros altos e o risco elevado, que têm dificultado a emissão de títulos prefixados e atrelados à inflação.

Outro ponto de atenção, aponta o documento, é a concentração de vencimentos das Letras Financeiras do Tesouro (LFT) em 2027 e 2028. Segundo o IFI, isso pode virar uma oportunidade para o Tesouro Nacional — desde que os juros caiam de forma consistente.

Nos estados, a situação piorou em 2025. O resultado primário, que mede a diferença entre receitas e despesas sem contar os juros da dívida, caiu para apenas 0,04% do PIB, reflexo de gastos crescendo mais rápido que a arrecadação.

Queda na receita

O relatório também aponta que a queda nas receitas mostra um enfraquecimento da economia, afetando impostos e transferências da União. Já as despesas continuam subindo, o que pode dificultar a volta de superávits sem mudanças na política fiscal.

Durante a aprovação do Orçamento de 2026, foi incluído um aumento de R$ 14 bilhões na arrecadação do imposto de importação. Em fevereiro, uma resolução elevou tarifas sobre bens de capital e de informática e telecomunicações.

A medida busca estimular a produção nacional e reduzir importações. Especialistas, porém, alertam que ainda há dúvidas sobre a eficácia dessa estratégia. O efeito imediato é claro: mais dinheiro entrando nos cofres públicos.

Principais pontos

- Crescimento econômico limitado: projeção de apenas 1,7% em 2026.

- Inflação controlada: IPCA estimado em 3,9% para o ano.

- Selic elevada: 12% no fim de 2026, mas ainda com juros reais de 7%.

- Dívida pública: deve alcançar 82,7% do PIB em 2026, com tendência de alta.

- Resultado fiscal: déficit nominal de -8,6% do PIB, refletindo dificuldade em equilibrar receitas e despesas.

Para saber mais

Conhecido como IFI, o Instituto Fiscal Independente, visa oferecer informações claras e imparciais para ajudar parlamentares e a sociedade a entender melhor a política econômica brasileira. Com isso, contribui para dar mais credibilidade às contas públicas e melhorar o debate sobre economia no país.

A importância do IFI está justamente em sua capacidade de fortalecer a transparência e a responsabilidade fiscal, funcionando como um contraponto técnico às projeções oficiais do governo.