Haddad não gosta de Selic a 15% ao ano, mas defende o presidente do BC

A reação aos juros partiu também de setores produtivos, de consumo e de analistas de mercado

Por Martha Imenes

Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, avalia que há espaço para os juros caírem

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de manter a taxa básica de juros (Selic) em 15% ao ano, embora fosse esperada, recebeu, mais uma vez, críticas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que avaliou que o patamar elevado impõe desafios à trajetória da dívida pública. Representantes de setores produtivos e de consumo, entidades e analistas de mercado também discordaram da manutenção da taxa.

Nesta quinta-feira (29), Haddad falou sobre o comunicado do Banco Central, que indicou a possibilidade de corte dos juros em março, o ministro disse que a redução vai ajudar na dívida pública, que subiu 18% no ano passado.

"O anúncio de que vai começar a cortar juro vai fazer essa trajetória se acomodar em um patamar razoável. Porque, na verdade, pagando 10% de juro real, não tem superávit primário compatível com a estabilização da dívida", pontuou.

O ministro confirmou a abertura de procedimento interno pelo Banco Central para verificar se houve falhas de procedimento em processos relacionados ao Banco Master e defendeu a atuação do órgão e de seu presidente, Gabriel Galípolo: "É assim que uma instituição, na minha opinião, deve agir".

A Selic começou a trajetória de alta em junho passado. No mês anterior estava em 14,75% ao ano. Esse patamar (15%) vem sido mantido desde aquele mês. A expectativa é de que em março essa trajetória comece a recuar, conforme explicação do BC.

Confira

A Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Confederação Nacional do Comércio (CNC), a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) foram algumas das entidades que criticaram a manutenção dos juros altos mesmo diante de um cenário de estabilidade econômica. 

De acordo com a CNI, a cautela defendida pelo Banco Central ignora a queda da inflação e os danos que o atual patamar da Selic causa à sociedade.

"O Banco Central deveria ter iniciado o ciclo de redução dos juros há muito tempo. Ao manter a Selic ao nível insustentável, o Copom prejudica a economia, aprofundando a desaceleração do crescimento. É indispensável que a flexibilização da política monetária comece já na próxima reunião", defende Ricardo Alban, presidente da CNI.

"O Brasil precisa de um ambiente de negócios mais favorável, que incentive o consumo e o investimento. Juros persistentemente altos dificultam o crescimento e travam a geração de empregos", reforçou o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros.

A avaliação da Fiemg é de que a taxa em patamar elevado tende a prolongar os efeitos adversos já percebidos na economia, ao restringir investimentos produtivos, encarecer o crédito, elevar os custos de produção e comprometer a competitividade da indústria.

"É necessária uma política monetária mais equilibrada, que consiga conciliar o controle da inflação com o estímulo ao desenvolvimento econômico e ao fortalecimento da competitividade da indústria nacional", afirma Flavio Roscoe, presidente da Fiemg.

Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Renato Correia, o cenário de juros altos limita tanto a demanda por imóveis quanto a capacidade das empresas de viabilizar novos projetos. Segundo ele, o impacto vai além do crédito habitacional e atinge toda a cadeia produtiva do setor.

"Uma política monetária contracionista encarece o crédito imobiliário, reduz a demanda por novos empreendimentos e desacelera a atividade da construção. Juros altos aumentam os custos, restringem o acesso ao financiamento e afetam a confiança dos investidores", afirmou.

Já a Abrainc avalia que a taxa de "juros nesse patamar por um período tão longo tornam o crédito mais restrito, desestimulam investimentos produtivos e afetam diretamente setores intensivos em mão de obra, como a construção civil". 

A associação pontua que cada 1 ponto percentual de queda da Selic poderia gerar uma economia anual de R$ 55 bilhões a R$ 60 bilhões, recursos que hoje são drenados para o serviço da dívida, em detrimento do investimento, da produção e da expansão do emprego.

Centro da meta

De acordo com a avaliação da CNI, ao manter os juros em 15%, o Banco Central desconsidera diversos sinais que permitiam a redução da Selic de forma imediata. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), por exemplo, subiu 4,26% em 2025; abaixo do teto de inflação (4,5%), e do IPCA de 2024 (4,83%).

Já as expectativas de inflação caminham para o centro da meta, que é de 3%. Conforme as últimas projeções do Boletim Focus, o IPCA deve fechar 2026 com alta de 4%, ante 3,8% em 2027 e 3,5% em 2028. Além disso, as projeções do Banco Central apontam inflação de 3,1% no horizonte relevante da política monetária, quando se considera o cenário de redução de taxa de juros do Boletim Focus.

Outro reflexo da Selic elevada é a falta de confiança do empresário: o Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI), da CNI, registrou, em janeiro de 2026, o pior resultado para o mês em 10 anos: 48,5 pontos, em uma escala de 0 a 100, em que valores abaixo de 50 pontos mostram falta de confiança dos empresários. A baixa confiança faz com que os dirigentes industriais deixem de produzir, contratar e investir, afetando a inflação futura com o menor crescimento da oferta na economia.