Horror à moda cearense na telinha

Disposta a formar plateias com projeções diárias de filmes nacionais, a TV Brasil mergulha no universo de Petrus Cariry com 'Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois', que rodou o mundo

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Transformada numa espécie de cinemateca viva, com sessões diárias de produções nacionais, a TV Brasil agendou uma jornada aos infernos do horror psicológico para a madrugada de domingo para segunda-feira, à 0h30 do dia 13 de julho, com a transmissão de "Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois" (2015).

O cult do cearense Petrus Cariry chega à programação da emissora como um exemplo de dramaturgias regidas pelo medo que transformam traumas familiares em matéria-prima para narrativas de apelo sensorial e visual pulsante.

Depois de circular por festivais no Brasil e no exterior, com passagens por eventos na Argentina, no Uruguai e na Índia, o longa tornou-se um marco da produção cearense contemporânea ao aproximar o cinema de autor de uma sofisticada investigação sobre os mecanismos do medo.

Em vez dos sustos convencionais, Cariry constrói uma atmosfera em que a angústia nasce da memória, do silêncio e das feridas emocionais. Ilustra a evolução do Ceará em suas gramáticas audiovisuais mais radicais, que vem desde as pesquisas estéticas abertas naquele estado por Petrus (a partir de "O Grão", em 2007) e pelo coletivo Alumbramento, com "Estrada Para Ythaca" (2010).

O Ceará tem sido presença constante nos maiores festivais do planeta, vide a escalação de "Motel Destino", de Karim Aïnouz, para concorrer à Palma de Ouro de Cannes, em 2024. Em fevereiro, a Berlinale dedicou uma láurea da imprensa alemã a "Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha", da diretora Janaína Marques, que venceu o Olhar de Cinema de Curitiba, num placar que aumenta o saldo de gols cearense.

"Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois" passou por festivais na Índia, Argentina, Polônia, Iraque, Chile, Lituânia, Portugal e Equador. Ganhou láureas em pelo menos dez desses eventos, entre eles o prêmio de Melhor Filme no Rojo Sangre, de Buenos Aires. O Cine Ceará deu a sua láurea de Melhor Atriz para Sabrina Greve, por sua atuação estonteante.

Clarisse, sua personagem, retorna à antiga casa da família para visitar o pai, gravemente enfermo. O reencontro com o espaço da infância desperta lembranças e segredos que haviam permanecido enterrados durante anos. Aos poucos, a protagonista mergulha num ambiente sufocante, em que realidade, desejo e culpa passam a se confundir. Vale destacar o trabalho de Eraldo Pontes, ator recorrente de Petrus e de seu pai, Rosemberg Cariry.

Mais do que recorrer às convenções do terror, o diretor utiliza o gênero como ferramenta para investigar a deterioração das relações familiares. A frase que sintetiza a jornada da personagem poderia ser: quando a dor se torna maior do que o desejo, o próprio corpo deixa de suportar o peso da existência. É dessa tensão que nasce o desconforto permanente que conduz o espectador durante toda a narrativa.

A fotografia, assinada pelo próprio Cariry, reforça esse sentimento. Cada enquadramento explora a decadência da velha residência como uma extensão da mente da protagonista, transformando corredores, portas e sombras em elementos dramáticos. A construção visual aproxima o filme de um terror mais elegante do que a média nacional do gênero, mais interessado na sugestão do que no impacto imediato.

Há ecos do cinema de Andrei Tarkóvski na contemplação do tempo e da paisagem, assim como referências ao terror antropomórfico de Jacques Tourneur (1904-1977) e ao cult "Possessão" (1981), de Andrzej Zulawski (1940-2016). Ainda assim, o resultado preserva identidade própria ao inserir essas influências num universo profundamente brasileiro, marcado pela aristocracia rural em decadência e pelos fantasmas da memória familiar. Reator nuclear do longa, Sabrina conduz com destreza os rumos de uma personagem que oscila entre a fragilidade e a violência interior.

Ao lado de títulos como "Mãe e Filha" (2011), "O Barco" (2018) e "Mais Pesado É O Céu" (2023), "Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois" confirma Petrus Cariry como um dos realizadores mais inventivos do cinema brasileiro contemporâneo, capaz de transformar questões íntimas em experiências cinematográficas de rara potência estética. "Entre Os Dias" é seu projeto atual.

A programação da TV Brasil para o fim de semana, que acolhe Petrus, reserva lugar nobre para outros destaques de nosso cinema. Nesta sexta-feira, às 21h, a emissora apresenta "Cacaso na Corda Bamba", drama sobre a trajetória do poeta Antonio Carlos de Brito durante a ditadura militar, seguido, às 22h45, pela comédia dramática "Depois Daquela Festa", de Caio Scot. Para este sábado, entram em cartaz o romance "Dolores. Uma Mulher, Dois Amores", às 16h, o curta "Entre, Lua, a Casa É Sua", às 17h45, e o documentário "Um Filme de Cinema", de Walter Carvalho, às 21h.

Já para este domingo, dia 12, a faixa de cinema começa às 16h com o documentário "Swingueira", dedicado às competições de dança das periferias de Fortaleza. Às 21h30, a emissora exibe o inédito "Amor Rebelde", sobre um casal de ex-integrantes das Farc que tenta reconstruir a vida após o conflito colombiano. Na sequência, às 23h, vai ao ar o faroeste nordestino "Como Vivem os Bravos". É um cardápio de brasilidade plural.