Emílio Domingos: 'As periferias não são vitrines de problema, são espaços de invenção'
Deu Ibope dos bons a estreia da série "Anos 90: A Explosão do Pagode", há uma semana, na TV Globo, e o segundo episódio dessa investigação poética e humanista sobre um dos gêneros de maior popularidade em nosso cancioneiro estreia nesta quarta-feira, depois da novela das 21h. Imagens de arquivo (muitas delas raras) se somam a entrevistas inéditas para contar a gênese e a consagração de um modo de cantar, de tocar e de compor que consagrou Salgadinho, Chrigor, Netinho, Péricles, Belo e Márcio Art, além de grupos emblemáticos como Katinguelê, Exaltasamba, Soweto, Negritude Júnior, Art Popular, Só Pra Contrariar, Raça Negra e Molejo.
Uma das cabeças pensantes e pulsantes por trás desses registros é Emílio Domingos, um dos documentaristas mais prolíficos do país. Todo ano tem um, às vezes dois, longas novos dele, e a maioria explora o universo musical, sempre em interseção com a celebração das resiliências da população preta do Brasil. Há uma semana, ele levou "As Dores do Mundo: Hyldon" (rodado em dupla com Felipe David Rodrigues) à CineOP, em Ouro Preto (MG). Seu currículo inclui "A Batalha do Passinho" (2012), "Black Rio! Black Power" (2023) e "Os Afro-sambas: O Brasil de Baden e Vinícius" (2025).
Emílio nasceu na Tijuca e é filho de um porteiro. Morou em Del Castilho, por alguns anos da infância, e frequentou muito Pilares, porque suas tias de criação moravam lá. Conviveu durante muito tempo com a realidade da Zona Norte. "Como narrador, a minha periferia é a dos meus personagens, das pessoas que filmo, das pessoas às quais vou ao encontro e com as quais convivo ao longo dos processos artísticos", disse numa entrevista ao site europeu C7nema, logo que correu mundos com "Favela É Moda" (2019).
Na entrevista a seguir, Emílio analisa o fenômeno da cultura pagodeira.
De que maneira a série "Anos 90: A Explosão do Pagode" dialoga com o teu longa-metragem documental homônimo e o que o seriado traz de novo sobre esse universo?
Emilio Domingos - A direção do longa e da série é minha com Rafael Boucinha. A série é uma versão mais extensa do filme, conseguimos nos aprofundar em algumas questões. Ela tem 30 minutos a mais de conteúdo. Acho que o seriado reconhece o talento dessa geração e revela as origens do Pagode 90: os bailes de black music e equipes de som (como a Chic Show, a Zimbabwe e a Kaskatas); a influência da geração anterior (artistas do Rio de Janeiro como Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Fundo de Quintal e Jovelina Pérola Negra); a cena musical de escolas de samba, como a Camisa Verde e a Rosas de Ouro.
Como você definiria pagode?
Pagode é reunião de pessoas em torno do samba. No Brasil, é extensão da vida.
Numa entrevista sua ao www.c7nema.net, você disse: "Volto minhas lentes pra periferia porque, historicamente, é o lugar onde a cultura vive em ebulição neste país. É o lugar que nos deu gênios como Cartola, que só gravou seu primeiro disco aos 66 anos. Tento voltar minha câmera pra gênios da periferia, pra que novos Cartolas não sejam reconhecidos só na velhice". Nessa lógica, como seus filmes documentais musicais se articulam com os conceitos decolonais de formação da identidade negra?
Meus filmes contam a história da população negra sob a ótica da mesma. São uma espécie de reescrita dessa história. Meu cinema nasce de uma vivência periférica, mestiça e busca afirmar que as expressões culturais negras são fundamentais para se pensar o Brasil. Nos meus filmes, as periferias não são vitrines de problema, são espaços de invenção, estilo, beleza e sobrevivência criativa. Considero meus filmes como políticos. Um cinema de afirmação.
De que maneira, do Passinho a Hyldon, trafegando pelo Pagode, você reposiciona os gêneros musicais da MPB na História?
Quando se fala em MPB, é preciso pensar em música popular, pois é o que a sigla representa. Sem deixar de reconhecer os artistas que classicamente encontram-se dentro dessa classificação, eu tenho me preocupado em retratar artistas e gêneros musicais que são populares e que muitas vezes foram colocados à margem por denominações que não reconhecem isso. Ou os colocam como gêneros "menores".
Qual é o próximo .doc musical na tua obra e o que está rodando agora?
No momento, estou envolvido em dois documentários novos: um sobre Mr. Catra, que é um grande artista do funk e personagem complexo (em processo de edição); e outro filme que dirigirei com João Inada sobre o Zicartola (casa de samba de Dona Zica e Cartola, que foi um polo importante do samba e da nossa música nos anos 1960).
De que maneira a antropologia norteia teu olhar no teu processo criativo?
A minha formação em antropologia visual, me proporcionou uma metodologia de imersão, mas não me colocou como observador externo, ela me deu uma base ética, mas também sensível. Aprendi que observar não é extrair. Valorizo a pesquisa, o contato com o outro, o trabalho de campo, conviver com as pessoas que vão se tornar personagens dos filmes, e também a força da oralidade dessas pessoas.