Na estética do benquerer
O drama de amor 'Todo Tempo Que Temos' pede passagem à 'Sessão da Tarde' cavando a adesão popular da TV aberta à 'love story' entre Florence Pugh e Andrew Garfield
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Coqueluche em sua passagem pelo Festival de San Sebastián de 2024, onde foi a atração de encerramento, "Todo Tempo Que Temos" ("We Live In Time") ganha novo - e afetuoso - lugar no coração da cinefilia brasileira a partir desta segunda-feira, ao estrear na "Sessão da Tarde" da Globo. Passa às 15h30, como um esquenta para o Dia dos Namorados. Sabe aquele tipo de produção que faz a gente suspirar? Pois então, o longa-metragem do aclamado diretor teatral e sazonal cineasta irlandês John Crowley (de "Brooklyn") é desses.
Exibido no Festival do Rio, num Odeon lotado, esse drama romântico é daquelas narrativas fofas (tipo "P.S.: Eu Te Amo" ou "Um Lugar Chamado Notting Hill") que arrastam multidões às salas e duram uma eternidade na lembrança da gente. A produção é assinada por Benedict Cumberbatch (o Doutor Estranho da Marvel) e renova uma tradição outrora muito perseguida pelo audiovisual inglês - vide "Desencanto", de David Lean. A patrulha do politicamente correto vai se irritar, e muito, com a representação crua, sem estilização, da nudez, aplicada a seu par estrelas.
Há um ethos nesse filme mais próximo do cinema popular praticado nos anos 1940 - tanto o hollywoodiano quanto o britânico - do que do comportamento dos anos 2020. Temos um engenheiro de computação, Tobias (Andrew Garfield, sublime em cena), que quer viver agarradinho com sua paixão e ter filhos, de modo a repetir o pretérito perfeito que viu seu pai experimentar. Temos também uma chef um tanto cética, Almut (Florence Pugh, em seu desempenho mais sinuoso e mais tocante), que não se deixa amolecer por qualquer carinho, mas acaba arrebatada pelo jeitão bom moço de Tobias.
Há incongruências entre eles, fato que há. Não esqueçam da máxima do dramaturgo Jean Anouilh: "Existe o amor, é claro, e existe a vida, sua inimiga". Apesar de ruídos aqui e ali, principalmente alguns envolvendo o desejo dela de não ser mãe, forma-se uma covalência da mais alta plenitude entre eles. Só que esse par vai formar um triângulo com um ente nada bem-vindo: um câncer de ovário.
O que acompanhamos ao longo de uma hora e 47 minutos de uma montagem não linear, que volta no tempo aqui e avança nele acolá, é uma batalha épica, travada em dupla, não só contra uma doença terminal, mas contra o relógio. "Não usaria o termo 'heroico' para definir a postura deles, mas entendo que as pessoas encarem assim, uma vez que se trava uma batalha pela vida. O ponto é que pessoas que enfrentam doenças terminais não se enxergam como heróis, buscando apenas abraçar as chances que têm de seguir na Terra", disse Garfield ao Correio da Manhã em resposta na coletiva de imprensa do filme em San Sebastián.
O ex-Homem-Aranha tem uma atuação primorosa ao lado de Florence e disparam entre os potenciais candidatos à estatueta hollywoodiana, assim como Crowley vê seu prestígio no audiovisual crescer. "A única perspectiva que funciona dramaturgicamente num contexto de dor como este é alternância entre o romantismo e o lirismo", disse o diretor ao Correio em San Sebastián. "É um filme sobre os mistérios do querer".
Na versão brasileira que a Globo vai exibir, Carina Eiras dubla Florence. Sergio Cantú é o dublador de Garfield.
Nesta "Tela Quente", às 23h15, a Globo ataca de "Rodeio Rock", de Marcelo Antunez, com Lucas Lucco. Na trama, um aspirante a roqueiro é forçado a substituir um astro do sertanejo, e se depara com uma grande decisão: perder a própria identidade ou seguir seu coração.
Nesta terça, a boa da "Sessão da Tarde", também às 15h25, é "Meu Sangue Ferve Por Você", de Paulo Machline, que narra a história da paixão à primeira vista entre a jovem Magali West e um aspirante a astro canoro chamado Sydney Magal. O amor foi iniciado em 1982, com uma troca de olhares em um concurso de beleza. Nascido e criado em uma família de artistas, Magal iniciou sua carreira em casas noturnas nos anos 1970 e 80, estourando como um cantor de músicas românticas e, principalmente, sensuais. Dividindo o palco com nomes como Alcione e Emílio Santiago, conseguiu alcançar uma popularidade equivalente a de um mito. Giovana Cordeiro e Filipe Bragança assumem os papéis principais.