‘Febre do Rato’ completa 15 anos e ganha exibição especial na TV Brasil

Longa premiado de Cláudio Assis será exibido neste domingo, junto com outros destaques do cinema nacional na TV aberta e no streaming

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

O poeta Zizo e sua musa Eneida elevaram a temperaturam do cinema brasileiro no calafrio da 'Febre do Rato', de Cláudio Assis

Se você anda com saudade de Cláudio Assis, o libertário combatente da democracia narrativa que tacou fogo na caretice de nosso cinema com "Amarelo Manga" (2002), a televisão - em diferentes latitudes - vai aplacar a falta que estética em carne viva desse pernambucano faz na gente. Hoje mais quietinho, mas ainda ativo, Claudão (como é chamado) fez, há pouco tempo, a concepção artística da série "Chabadabada", do Canal Brasil, hoje encontrável no Globoplay. Já na TV aberta, neste domingo, às 23h30, a TV Brasil - espécie de cinemateca nacional ao alcance de um controle remoto - vai levar ao ar a obra-prima desse diretor provocativo: "Febre do Rato". O longa-metragem comemora 15 anos de sua consagradora estreia.

Lançado no extinto Paulínia Festival de Cinema, ele saiu de lá com oito troféus, incluindo o de melhor filme. "Febre do Rato" marcou um momento de transformação na trajetória de Cláudio Assis, ao dar uma abordagem mais lírica à violência que ele retratava em títulos como "Baixio das Bestas" (2006), vencedor do troféu Tigre em Roterdã, que vai reestrear em julho, na comemoração de seus 20 anos. Rodado em preto e branco e embalado por uma atmosfera lúdica pouco habitual na filmografia do diretor, o longa chegou à Paulínia cercado por curiosidade e expectativas, sendo apontado como um maior rival do blockbuster "O Palhaço", de Selton Mello, na disputa pelos principais troféus da mostra de 2011.

A recepção confirmou a especulação: Assis saiu do evento paulistano coroado em múltiplas frentes, incluindo seu elenco, com vitórias para Nanda Costa e Irandhir Santos, seus protagonistas.

O roteiro de Hilton Lacerda acompanha as aventuras de uma espécie de Wolverine da poesia, o rapsodo Zizo (Irandhir), um escritor marginal.

Ele circula pelas ruas do Recife distribuindo um jornal alternativo, enquanto espalha discursos libertários, provocações políticas e reflexões anárquicas sobre desejo, liberdade e transformação social. Figura performática e incendiária, Zizo vive entre recitais, encontros afetivos e confrontos com a hipocrisia da cidade, deleitando-se na banheira de sua casa, em transas com mulheres já idosas. Ao esbarrar com Eneida (Nanda), uma jovem que celebra a liberdade, Zizo vai cair de paixão. Seu casal de amigos mais fiéis, vivido por Tânia Granussi e Matheus Nachtergaele, vai ampara-lo na fossa ultrarromântica onde se afoga, em meio à repressão local.

Alexandre C. Mota/Divulgação - O pernambucano Claudio Assis em 2011, no ano de 'Febre do Rato'

Embora muitos tenham apontado "Febre do Rato" como um filme "mais manso" dentro da obra de Cláudio Assis, o realizador rejeitou essa ideia, defendendo que preservava a mesma intensidade emocional e o mesmo compromisso artístico de seus longas anteriores. Dizia se tratar de um estudo sobre o "faz-de-conta" da vida social. O título nasce de uma expressão popular nordestina usada para definir alguém "fora de si", tomado por um estado de excitação extrema. Cláudio relacionou essa ideia às manifestações populares do maracatu e ao desejo de produzir um cinema capaz de despertar inquietação e coragem.

Um dos títulos mais tocantes de Assis, "Piedade" (2019), pode ser visto hoje no Globoplay. No longa, uma praia com nome de sentimento é alvo do apetite da corporação para a qual um executivo corrupto chamado Aurélio (Nachtergaele, sempre ele) trabalha, reportando suas andanças (e suas mutretas) à sua mãe, de quem disfarça sua orientação sexual. A tal big mama, igualmente intolerante, vivida por Denise Weinberg, não esconde sua homofobia quando suspeita que homens sem camisa frequentam o quarto de seu filhinho. Apesar das carapuças de que se esquiva, Aurélio veste com prazer, no âmbito profissional, a máscara de predador.

Sua presa preferida, com perfil de iguaria, é o exibidor Sandro, papel que faz Cauã Reymond passar, de uma vez por todas, aos altares do risco e da exuberância cênica.

Se existe, em "Piedade", um lugar de heroísmo, de virtude, esse lugar pertence a Sandro, que gravita pelo liberalismo do amor. A morada dele é um cinema pornô, onde reside a autoralidade mais fina de Assis, como o grande realizador que é: sua obra, como uma vez definiu Nachtergaele, é sobre "como a gente trepa errado e sobre como a gente ama errado". Aliás, trepadas raras vezes ganharam luz mais linda do que a iluminação empregada pela fotografia de Marcelo Durst para desenhar o tônus lírico da querência dos corpos de Assis.

Antes de celebrar o legado de Assis, neste sábado, a TV Brasil marca um golaço para a seleção da memória de nosso audiovisual ao exibir "Garrincha, A Alegria do Povo" (1962), de Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), às 15h. Os dribles do Craque das Pernas Tortas lhe dão força.