Eternamente Tendler
O papa do documentário histórico no país ganha a grade da TV Brasil, recebe homenagem póstuma da ACCRJ e ocupa streamings, enquanto sua filha luta para preservar sua obra
O papa do documentário histórico no país ganha a grade da TV Brasil, recebe homenagem póstuma da ACCRJ e ocupa streamings, enquanto sua filha luta para preservar sua obra
Tem Silvio Tendler (1950-2025) na TV Brasil neste sábado (10), ainda que seu alcance vá além da telinha. Às 21h, a televisão aberta vai entender porque "Glauber - O Filme: Labirinto do Brasil" ganhou o Prêmio da Crítica, venceu o Júri Popular e foi agraciado com a Láurea do Centro de Pesquisadores no encerramento do Festival de Brasília de 2003. Saiu de lá para a Croisette, a fim de representar o documentário nacional em Cannes, sob a inquietude de seu realizador, que morreu há quatro meses, sem pedir licença à nossa saudade.
A partida do cineasta e professor, no dia 5 de setembro, decorrente de complicações do diabetes, não eclipsou sua presença em (muitas) telas, tampouco freou a luta diária de sua filha, a produtora Ana Rosa Tendler, a fim de levar adiante os projetos inacabados dele, lançar (o ainda inédito em circuito) "Brizola - Anotações Para Uma História" e preservar um legado pautado na revisão crítica (e poética) do passado. Essa peleja, contudo, tem sido dura.
"Mais do que um acervo, meu pai me deixou uma missão. Dar continuidade ao trabalho dele é honrar o homem sensível, generoso e profundamente comprometido com a memória do Brasil", diz Ana Rosa, preocupada com a preservação dos feitos em película de Silvio.
Ela vem buscando patrocinadores para digitalizar as imagens reunidas pelo documentarista de maior bilheteria do cinema de não ficção do país e, em seguida, depositar seu material em um órgão público que faça honra à sua potência artística. Muito "não" apareceu no caminho dessa corrida. Ela hoje está à espera do resultado do edital de distribuição e comercialização do Ministério da Cultura (MinC) para ver se é possível levar o longa sobre o líder político Leonel Brizola (1922-2004) à telona. Sua projeção no Festival do Rio de 2024 foi ovacionada, lotando poltronas, impondo o uso de cadeiras extras. A incerteza no porvir dos editais é árdua, mas Ana Rosa não desiste. Resistir está no seu DNA. Sorte que alguns anjos da guarda têm surgido.
No dia 20 de dezembro, a Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) votou seu ranking de Melhores de 2025 (com "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, nas cabeças) e anunciou tributos a medalhões cinematográficos que partiram no ano passado. Silvio é um deles e vai ganhar projeção de um de seus longas, "Utopia e Barbárie", de 2009, na mostra organizada pela instituição de jornalistas. A sessão ficou para 21 de fevereiro, às 14h30, na Caixa Cultural, ao lado de "Chuvas de Verão" (1977), de Carlos Diegues (1940-2025), outro de nossos titãs, morto há onzes meses.
"A ACCRJ tem como principal objetivo celebrar o cinema em sua plenitude. E Silvio Tendler é um dos grandes realizadores do cinema nacional, traduzindo o espírito inquieto da narrativa e linguagem brasileiras com maestria", diz a presidente da ACCRJ, a crítica Ana Carolina Garcia.
Aclamado como o mais ativo representante da História entre os artesões autorais a filmar docs em língua portuguesa, Silvio entrou no clube do milhão numa época em que exibidores não davam bola para narrativas que não fossem ficcionais. Seu "O Mundo Mágico dos Trapalhões" (1981) somou 1.892.117 pagantes, tornando-se um caso raro de blockbuster de um segmento que (muito) raramente ultrapassa 250 mil espectadores. Hoje na Prime Vídeo da Amazon, esse longa-metragem retrata Didi, Dedé, Mussum e Zacarias em suas vidas fora das câmeras. Ainda nos anos 1980, em meio ao processo de redemocratização, Tendler lotou cines com "Os Anos JK - Uma Trajetória Política" (1980), que totalizou 800 mil espectadores, e "Jango" (1984), que contabilizou cerca de 1 milhão de entradas vendidas. Na dramaturgia de ambos, ele contrapôs o otimismo da era pré-1964 à sisudez do regime militar. Completou sua "Trilogia Presidencial" com "Tancredo: A Travessia", lançado no festival É Tudo Verdade, em 2011. Em meio à euforia comercial de seus maiores êxitos, ele fundou a produtora Caliban e marcou seu nome na docência, lecionando por anos a fio na PUC-Rio. "A verdade vai aflorar com outras tecnologias", dizia ele a estudantes.
"O conhecimento do passado é essencial para o futuro", disse Silvio ao Correio da Manhã, quando finalizou o filme sobre Brizola. "A vida não é uma folha de papel em branco".
Nessa sua última conversa com o jornal, o cineasta contou que deixou inacabado um filme sobre Pontos de Cultura, então em gestação. Segundo Ana Rosa Tendler, o longa se chama "Pontos de Partida" e está sendo finalizado pelo produtor Claudio Kahns.
