Cinevisão: 'O Auto da Compadecida 2' chega à telinha em formato de minissérie

Depois de arrastar 4,4 milhões de pagantes ao circuito exibidor e mobilizar o streaming, o longa de Guel Arraes ganha a TV

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

A sequência das peripécias de João Grilo e Chicó vendeu 4,4 milhões de ingressos de dezembro de 2024 a março do ano passado

Depois de arrastar 4,4 milhões de pagantes ao circuito exibidor e mobilizar o streaming, o longa de Guel Arraes ganha a TV

Depois da telenovela "Três Graças", às 22h25, é hora de o país conferir, na Rede Globo, mais um episódio da edição serializada para a TV (aberta) do fenômeno de bilheteria "O Auto da Compadecida 2". Em sua arrecadação, o longa-metragem de Flávia Lacerda e Guel Arraes vendeu 4,4 milhões de ingressos, entre 25 de dezembro de 2024 e março de 2025, parando, na sequência, na grade da Prime Video, a plataforma digital da Amazon. Depois da telona e do streaming, chegou a hora de o êxito cinéfilo encontrar uma nova latitude, fazendo justiça a um projeto estético perseguido por Guel desde 2000, de fazer "cinevisão", ou seja, a sinergia entre a tela pequena e o circuito exibidor.

Com o apoio de dois titãs, Matheus Nachtergaele e Selton Mello, nos papéis de João Grilo e Chicó (respectivamente), a busca do diretor por integrar mídias ficou mais factível. "Recebi o João da pena do Ariano Suassuna e aprendi com ele a fazer os diferentes timbres das diferentes gentes do Brasil sem debochar delas, com respeito", disse Nachtergaele ao Correio da Manhã, em meio à estreia do longa, que está no https://www.primevideo.com.

Presente do nosso cinema para sua nação, agora na televisão, "O Auto da Compadecida 2" faz rir muito, mas também sabe comover. Usa uma brincadeirinha entre João Grilo (revisitado por Nachtergaele numa atuação luminosa) e seu melhor amigo, Chicó (Selton Mello, arrebatador), para disfarçar aquela torrente de ternura que só as amizades verdadeiras despertam: "Entrou uma coisinha aqui no meu olho...". Nalguns momentos, a audiência da Globo vai sentir essa tal coisinha no olho ao rever dois personagens que se tornaram síntese viva do olhar pícaro do já citado dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014), criador dessa dupla de heróis maltrapilhos. Foi em 1956 que os palcos nacionais conheceram Grilo, numa peça repleta de referências ao fabulário ibérico, com alicerces fincados em arquétipos de séculos passados, inclusive da Idade Média. Em 1999, Guel levou as aventuras criadas por Ariano à TV, como minissérie da Globo. Adaptou-a para um formato de longa, de olho no cinemão, cerca de dois anos depois.

TV Globo - O Auto original de Guel Arraes nasceu como minissérie, em 1999

Hoje no Globoplay e na Amazon, "O Auto..." n° 1, em versão filme, contabilizou 2.157.166 ingressos vendidos. Faturou-se mais nessa sequência, engenhosamente fotografada por Gustavo Hadba, que teve como palco de pré-lançamento as engrenagens da feira nerd Comic-Con Experience (CCXP), em São Paulo.

Escrito por Guel e João Falcão, com a colaboração de Adriana Falcão e Jorge Furtado, "O Auto da Compadecida 2" se passa vinte anos depois do original e mostra a pacata rotina de Chicó (Selton) no sertão nordestino, onde vive da venda de santinhos de madeira, a contar o causo da ressurreição de João Grilo (Nachtergaele). Seu grande amigo não dá notícias há duas décadas e Chicó acha que ele morreu novamente, até o dia em que João reaparece vivinho da silva e cheio de planos mirabolantes, que vão virar o Nordeste de cabeça para baixo, em meio a uma campanha política envolvendo um coronel (Humberto Martins) e um radialista (Eduardo Sterblitch). Dona Rosinha (Virginia Cavendish) tá de volta também, assim como Nossa Senhora, a Compadecida, encarnada por Taís Araujo.

Destaque do elenco de dois dos mais importantes filmes brasileiros da História - "Central do Brasil", de 1998, e "Cidade de Deus", de 2002 -, Nachtergaele explicou ao Correio que regressar a Taperoá, a cidade imaginária de Ariano, foi um meio de alimentar nosso instinto de fantasia.

"Nossa tarefa é recosturar o carinho do brasileiro por sua cultura. O cinema é um setor importante para a economia, pelo tanto de emprego que gera. Mas para o negócio funcionar, a gente precisa se amar. Neste momento, o Brasil está tentando gostar de si, embora ainda dividido. O nosso cinema, que tem agitado as bandeiras identitárias com coragem, quer espectadores nas salas, prestigiando o que a gente tem para contar. Fizemos o "Auto 2" para ser um alívio, uma lembrança de que aqui é bom", disse Nachtergaele, na estreia da fita.

Em paralelo ao trabalho da TV Globo, nosso cinema se espalha na televisão aberta também via TV Brasil, que, dia a dia, transmite, sempre às 21h, uma produção nacional diferente. Hoje é a vez do documentário "Caminho e Volta" (2015), com direção de José Joffily e Pedro Rossi. O foco filme são duas figuras: André Câmara, fotógrafo de 45 anos, e Maria do Socorro, de 87. Eles têm uma coisa em comum: ambos deixaram o Brasil para morar no exterior. A narrativa de Rossi e Joffily relata as tentativas dessas duas pessoas para fazer o caminho de volta para o Brasil, lidando com todas as incertezas e as diferenças ao retornarem.