Um hemisfério de pura diversão... nas plataformas
Depois de elencar os melhores lançamentos em cinema, de janeiro a junho, o Correio da Manhã faz uma triagem de dez joias que 'estrearam' via streaming antes de julho chegar
No comecinho do mês, o Correio da Manhã listou os filmes que mais barulho fizeram em salas de projeção de 1° de janeiro até 30 de junho, fazendo uma ressalva: um dos títulos de maior vigor estético a aterrissar por aqui em 2026, o espanhol "Tardes de Solidão", de Albert Serra, só veio até nó via MUBI, uma das mais ativas plataformas digitais da web. Já que é assim, porque não repetir a mesma triagem confiada ao circuito exibir, só que, agora, no âmbito do streaming nacional? Afinal, tem muito filmaço que nasceu Netflix, nasceu Original Prime Video ou foi feito nos estúdios Globo para o Play do Plim-Plim. A lista a seguir analisa pérolas que não tiveram carreira comercial em tela grande entre nós, mas... são a maior diversão. Lembrando: não se trata de narrativa serializada; só vale longa, média ou curta-metragem.
Alguns são pura pipoca, outros exploram veios narrativos de invenção, como fez Serra. Seu "Tardes de Soledad" (título original) foi encarado desde a sua primeira exibição pública, no Festival de San Sebastián, como um gesto de ousadia e um convite à provocação, este ensaio documental faz jus à brutal controvérsia que despertou ao receber o troféu basco Concha de Ouro de 2024, por sua excelência de linguagem. Adota como objeto de estudo um dos temas dos mais indigestos para os novos tempos: a tourada. Ao seguir o dia a dia de um toureiro peruano visto como celebridade em seu ofício, Andrés Roca Rey, o realizador de cults como "A Morte de Luís XIV" (2016) combate o machismo e também a naturalização da violência contra os animais inerentes àquela tradição ibérica. A fotografia de Artur Tort nos coloca no coração da arena e a engenharia sonora nos faz experimentar cada "Olé!" da plateia como se fosse um tremor de terra. Vai lá na www.mubi.com sentir esse barato. Antes aí vai nosso Top Ten:
ÓRFÃO (Ávra), de László Nemes (Hungria): A interpretação notável de Grégory Gadebois como figura paterna possível para o protagonista, o jovem Andor Hirsch (Bojtorján Barabás), confere equilíbrio ao novo filme do realizador de "O Filho d Saul" (2015). Rodado em 35mm, em Budapeste em dez dias, em 2024, "Orphan" foi escrito por Clara Royer e Nemes a partir das vivências do pai do diretor durante a Revolução Húngara de 1956, quando forças opositoras reagiram ao domínio soviético da União Soviética. Na narrativa, Andor sonha reencontrar sua figura paterna desaparecido durante a Segunda Guerra Mundial, o que alimenta uma relação tensa com a mãe, Klára (Andrea Waskovics). Perdido entre inquietações e fantasias, o jovem cruza com Mihály Berend (Gadebois), o homem que escondeu Klára durante a guerra e que agora procura reconstruir uma ligação com ela. Plataforma: MUBI
SALVE GERAL: IRMANDADE, de Pedro Morelli (Brasil): Produção da O2, derivada do seriado homônimo com Seu Jorge, essa produção estatelou olhares em sua estreia, em março. Pudera! Pedro (filho do também realizador Paulo Morelli, com quem rodou o rasga-coração "Entre Amigos", em 2013) dirige sequências de tiroteio e perseguição com uma ventoinha cinemática e uma descarga de adrenalina dignas de "John Wick". Em vez de Keanu Reeves, temos uma Naruna Costa com sangue no olho e atuação febril no papel da advogada Cristina, que precisa salvar a sobrinha, Elisa (Camila Damião), de uma turma fardada que, apesar de ter distintivo, age pela banda podre da Lei. Plataforma: Netflix
O JUSTICEIRO: UMA ÚLTIMA MORTE ("The Punisher: One Last Kill"), de Reinaldo Marcus Green: Encarado como um dos atores em maior ebulição de Hollywood (e na Broadway, onde encena a peça "Um Dia de Cão"), Jon Bernthal foi o terceiro nome a encarnar o Justiceiro, das HQs Marvel, no audiovisual. Antes vieram Dolph Lundgren e Thomas Jane. Ele superou ambos, numa série de duas temporadas da Netflix, levadas para o streaming do Mickey, onde estrela e escreve este média regado a sangue. A realização é do cineasta por trás do sucesso "Bob Marley: One Love" (2024) e ele sabe extrair pranto em meio a narrativas de espetáculo gráfico. Aqui, o vigilante Frank Castle (Bernthal) tomado pela culpa duvida da relevância de sua cruzada contra o Mal... até a violência explodir em sua cidade. Bernthal reluz. Plataforma: Disney Plus
UM POETA ("Un poeta"), de Simón Mesa Soto (Colômbia): Nesta trama coroada com o Prêmio do Júri da mostra Un Certain Regard de Cannes e com o prêmio Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián, o trovador Oscar (interpretado com fluidez por Ubeimar Rios, um ator não-profissional) teve a chance de lançar dois livros e de dar aulas, o que, nem de longe, aplaca seu apetite por prestígio. Sua pátria, a mesma de Gabriel García Márquez, viu brotar muitos faróis na literatura. Oscar almeja ser um. Se bebesse menos, era mais fácil chegar lá e não estaria, já quarentão, à mercê do quarto que tem na casa da mãe, rejeitado pela filha adolescente. O verbo "desistir" é imposto pela vida a Oscar como um norte inescapável. Mas a crença de que o poema pode levar quem escreve e quem lê à transcendência o leva a uma jovem, Yurlady (Rebeca Andrade), que demonstra ter um talento nato para metáforas. Na Medellín filmada por Mesa Soto numa fronteira ténue do naturalismo, a relação entre eles expõe crises culturais disfarçadas de assistencialismo e de capitalização da miséria (alheia). Plataforma: HBO MAX
DEIXA ACONTECER, Natália Grimberg (Brasil): Escalando um ator em fase de apogeu (João Vítor Silva, de "Cinco Tipos De Medo" e "O Agente Secreto") como uma espécie de Hugh Grant pagodeiro, esta comédia romântica filé segue os rumos da estudante Marina (Paola Antonini), uma jovem PCD mineira que decide deixar Uberlândia para cursar Medicina no Rio de Janeiro, determinada a conquistar sua independência. A prótese de metal que usa a substituir um de seus membros inferiores costuma ser um indício de alerta para sua mãe (Camila Morgado) e seu pai (Danton Mello), muito carinhosos com a moça. Ao ser aprovada em uma renomada universidade pública carioca, ela vê a mudança como uma oportunidade de provar que é capaz de conduzir a própria vida, sem que ninguém a conduza pela mão. O caso é que o Cupido atira suas flechas quando menos esperamos. Plataforma: Globoplay
SUA CULPA: LONDRES ("Your Fault: London"), de Charlotte Fassler e Dani Girdwood (Reino Unido): Uma história de amor proibida entre Noah, de 18 anos (vivida pela ótima Asha Banks), e o meio-irmão Nick (Matthew Broome) enfrenta desafios enquanto seguem caminhos diferentes - ele nos negócios, ela em Oxford - ao mesmo tempo que os dois lidam com novos relacionamentos e segredos. A canção "Hot", de Avril Lavigne, na trilha sonora, incrementa a pressão da trama. Tem um díptico bom também: "Minha Culpa: Londres", de 2025. Plataforma: Prime Video.
CONSEQUÊNCIA ("Outcome"), de Jonah Hill: Uma das comédias acridoces mais inusitadas que o gênero produziu nestes tempos de patrulha contra o riso. Um Keanu Reeves em estado de graça vive o ator Reef Hawk, que (como seu intérprete, também) ficou célebre com franquias sucessivas. Mas sem seu público saber, ele viciou-se em heroína, passou por um rehab e, agora, preparado para retomar seu trabalho, encontra-se sob ameaça de "cancelamento". Seu administrador de crises, Ira Slitz (papel do próprio Jonah Hill), revela que alguém está o chantageando com um vídeo de conteúdo questionável. Sua vida pode virar de cabeça para baixo caso o conteúdo vaze. Eis que Reef então decide se redimir com aqueles a quem magoou - ou prejudicou - no passado. O diretor Martin Scorsese interpreta um deles. Plataforma: Apple
WILLIAM TELL: O GUERREIRO ("William Tell"), de Nick Hamm: Nem Robin Hood manuseia uma flecha com tanta destreza quanto Guilherme Tell, herói medieval que, em vez do arco, tinha uma besta. Ele virou lenda no ano de 1307, quando a Suíça é uma província sob o domínio da casa real austríaca, do clã Habsburgos. O povo suíço está ressentido com essa ocupação estrangeira e uma rebelião está a se formar, especialmente porque soldados dos líderes políticos maltratam a população à vontade. Tell (Claes Bang) é o único habitante com destreza em combate para reagir. Reluta, por devoção à sua família, mas o chamado da guerra vai conspurcar sua quietude, num espetáculo eletrizante. Plataforma: Looke/ Prime Video
MIKE & NICK & NICK & ALICE, de BenDavid Grabinski: Vince Vaughn passou a segunda metade dos anos 2000 enchendo os cofres de Hollywood de dinheiro com comédias nas quais usava seu corpanzil aparvalhado em prol da gargalhada. Aqui, ele aparece em dose dupla: é o Nick de hoje e o Nick de amanhã. Seu personagem, seja em que dimensão do tempo for, está metido com o crime. O chefão que quer sua cabeça, por considera-lo um X9 só não é menos perigoso do que seu amigo Mike, papel de James Marsden, o Ciclope dos X-Men na fase Bryan Singer. Os dois amam a mesma moça, Alice (Eiza González, um furacão de carisma). Isso gera um mar de confusões e tiros, à moda Frank Tashlin, deus do riso nos anos 1950 e 60. Plataforma: Disney
PAIXÃO DE ESCRITÓRIO ("Office Romance"), de Ol Parker: Num bem-vindo interdito a normas moralistas da contemporaneidade, que só uma estrela do porte de Jennifer Lopez seria capaz de bancar, um advogado britânico que mais parece um peixe fora d'água nos EUA (papel de Brett Goldstein) entra no radar da dona de sua empresa, a Air Cruz, não por seus dotes com a palavra da Lei, mas por seu charme. JLo é a patroa em questão, Jackie Cruz, esbanjando humor numa comédia romântica com cara do que Meg Ryan fazia nos anos 1990. Um destaque à parte aqui é a escalação de Edward James Olmos (dublado por Élcio Romar) para ser o pai de Jackie no filme. Plataforma: Netflix