'Bergmaniando' na grade da MUBI
Plataforma celebra aniversário do realizador sueco três títulos fundamentais de sua filmografia
Entre 1946, com o lançamento de "Crise", e 2003, quando o teledrama "Saraband" começou a circular por TVs e cineclubes, a indústria audiovisual deitou-se num divã para um trabalho de análise da moral, da fé e do amor apoiado numa troca simbólica com o diretor que pôs dilemas do espírito no centro da câmera: Ingmar Bergman (1918-2007). Em 14 de julho, o artesão autoral sueco completaria 108 anos.
Para celebrar seu legado de mestre, a MUBI reúne três títulos essenciais de sua trajetória: "O Sétimo Selo" (1957), "Persona" (1966) e "Gritos e Sussurros" (1972). Eles já estão na grade da plataforma. Abrangendo diferentes momentos de sua carreira, esses filmes revelam a amplitude de uma obra marcada pela inquietação filosófica, experimentação formal e uma profunda investigação das complexidades da experiência humana. Mais de meio século depois de sua realização, permanecem como referências incontornáveis para cineastas e espectadores ao redor do mundo.
Numa queda de braço com nosso superego, na triagem das neuroses que levam à brutalidade e ao desamor, Bergman rodou 65 filmes, sem contar as práticas com teatro filmado que fez para a televisão escandinava. "Morangos Silvestres" (1957) é um deles. Laureado com o Urso de Ouro do Festival de Berlim, o longa-metragem representa um momento de ascese de uma obra considerada por muitos a mais balanceada que arte cinematográfica já viu. Para muitas cabeças da crítica, Bergman foi o diretor dos diretores.
Seus filmes se preocupam em discutir a finitude, presença de Deus, a agonia do existir, solidão, a fragilidade das convenções sociais e as incongruências da vida a dois. Deste último tema, ele extraiu um fenômeno midiático: "Cenas de um Casamento", minissérie de TV, também editada como filme, que fez aumentar o número de divórcios em território escandinavo na época de seu lançamento, em 1973. O cineasta ganhou um Globo de Ouro pela empreitada, uma das muitas honrarias douradas em seu currículo. Filho de um pastor protestante, nascido em Uppsala (a 70km a norte de Estocolmo), o diretor - que teve seu primeiro acesso a um projetor de imagens ainda menino, trocando uma dezena de soldadinhos de chumbo com seu irmão por aquela "lanterna mágica" - ganhou um Oscar honorário (o Irving G. Thalberg, dado em 1971), o Leão de Ouro Especial do Festival de Veneza, em 1971, e a Palma das Palmas do Festival de Cannes, em 1997.