Inventário de perdas
Premiado em Berlim há quatro anos e inédito em circuito nacional desde então, 'So Long, My Son', de Wang Xiaoshuai, ganha a grade da MUBI, recriando o passado de sua pátria
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Ao ver seu filme "So Long, My Son" ("Di jiu tianchang") ser duplamente laureado com o prêmio de Melhor Interpretação do Festival de Berlim, em 2019, uma época na qual o evento ainda mantinha divisão de gêneros (Melhor Atriz e Melhor Ator) no Urso de Prata, o diretor Wang Xiaoshuai cravou uma frase reativa ao sistema de censura do cinema em seu país: "Filmar é questão de coragem. E coragem é questão de escolha". A frase saiu no site português C7nema, de Jorge Pereira Rosa, e reverberou pelo mundo, primeiro o lusófono, depois toda a Europa, a demarcar a rebeldia de um cineasta diante dos ditames do silêncio imposto por governantes de sua pátria, a China.
Uma pátria que virou potência audiovisual a partir de cults como "Sorgo Vermelho" (1988) e "Adeus, Minha Concubina" (Palma de Ouro de 1993), ambos avessos a cabrestos. A decisão de levar à Berlinale seu longa-metragem abertamente crítico ao regime político chinês fez com que Xiaoshuai, hoje com 60 anos, enfrentasse problemas para ter sua lírica narrativa sobre a perda exibida na Ásia. Laureado ainda com outros 43 prêmios, seu filme nunca foi lançado em circuito no Brasil, mas entra... enfim.... no redor dos brasileiros, via streaming, por meio da MUBI.
"Não é interessante para o governo da China que se fale do passado. Quando um filme chinês que assume pra si uma vertente mais crítica ganha prêmios na Berlinale ou em Cannes, sua carreira comercial no mercado interno de nosso país é ainda mais difícil de se concretizar pelo fato de quebramos com um certo código de representação que as autoridades esperam de nós", explicou Xiaoshuai ao Correio da Manhã, num papo em Berlim, em meio à luta para fazer seus dois filmes mais recentes - "The Hotel" e "Above The Dust", ambos de 2022 - alcançarem visibilidade internacional. "Quando um filme de língua não inglesa, de territórios como a Ásia, tem um explícito potencial de bilheteria, distribuidoras do mundo todo se interessam em tê-lo em seu catálogo. Mas o cinema que eu faço está mais preocupado em questionar".
Nas raias do melodrama, mas hábil o suficiente para politizar cada plano de modo a fugir do folhetim, "So Long, My Son" ("Di jiu tianchang") explode o peito alheio à força dos gestos de sua estrela, Yong Mei, e de seu astro, Wang Jingchun (em atuação magistral). Eles interpretam um casal que leva 30 anos às voltas com o luto pela perda de um filho. "Existe um caminho de plena sutileza neles, que me ajuda a fazer desse filme um painel das mazelas sociais chinesas que se ergue na tela a partir do drama individual dos personagens", explica o diretor, antes conhecido por "Sonhos com Shanghai" (2005) e "Bicicletas de Pequim" (2001). "O eixo do roteiro é a reestruturação de uma vida a dois fraturada pela perda de uma criança, narrada em analogia a transformações de uma cidade ao longo das décadas, sempre atenta às classes operárias que habitam suas paisagens. Existe um luto individual e o florescer de uma nova China que se ergue a partir do turbilhão politico do fim dos anos 1980, com as manifestações na Praca da Paz".
Afetuoso do começo ao fim de suas três horas de duração, "So Long, My Son" arrebatou aplausos também em San Sebastián, em 2019, levando a telonas da Europa um olhar sobre as transformações arquitetônicas e políticas na geografia chinesa, física e humana. "Não aceito autocensuras, nem travas de gênero, o que me leva a filtrar caminhos folhetinescos. O melodrama lida com a dor a partir de causas. Não exploro as causas da dor. Eu estudo suas consequências", diz Xiaoshuai. "No filme, ao longo dos anos, vemos que prédios importantes para a história dos personagens vieram abaixo, desconfigurando a geografia sentimental deles. No aspecto relacional, a trama investe em reuniões familiares, em diversos momentos de sua narrativa, para revelar o que se perdeu".