Por: Rodrigo Fonseca | Especial para o Correio da Manhã

O chicote de Indiana Jones estala na Disney

O octogenário Harrison Ford encara o eterno Indiana Jones no longa que fecha o ciclo da franquia | Foto: Divulgação

Não desce pela garganta de nenhum cinéfilo raiz o fracasso de "Indiana Jones e a Relíquia do Destino", que custou cerca de US$ 290 milhões e faturou US$ 383,9 milhões mundo afora, o que não zera (nem de longe) as contas. Na aritmética de Hollywood, o lucro só vem quando um filme contabiliza três vezes aquilo que custou. Bateu essa meta, lucra.

Harrison Ford fez muito estúdio lucrar, da Fox, com "Star Wars" (1977-1983), à Warner, via "O Fugitivo" (1993). Porém o mundo e os números hoje são outros... Mas existe a streaminguesfera, onde muito flop do circuitão vira fenômeno de acesso. No dia 1° de dezembro, o longa-metragem mais recente do herói eternizado por Ford, sob a batuta de Steven Spielberg, chega à Disney . Aí, um novo capítulo há de se desenhar para o audiovisual.

Amamos odiar o longa anterior, "O Reino da Caveira de Cristal" (2008), o episódio quatro da franquia "Indiana Jones". Apesar de Spielberg ser o seu realizador, esse tomo quatro jamais agradou, pelo fato de não reproduzir o ethos taquicárdico (e romântico) da trilogia inicial, acrescentando um personagem desnecessário e mal defendido à mitologia do arqueólogo herói - um filho vivido pelo encrenqueiro Shia LaBeouf - e incorrendo por uma trilha desbotada, fedida a naftalina, de reconstrução do passado do audiovisual. Quebra, portanto, com o apelo modernista da série, de mimetizar o passado e reinventá-lo.

Não houve essa reinvenção, e ela é essencial. Na década de 1980, quando "Os Caçadores da Arca Perdida" estreou, em 81, Spielberg e George Lucas fizeram um exercício proustiano (de buscar o tempo perdido) e resgataram o espírito heroico dos seriados dos anos 1930 e 1940 das matinês. Resgataram elementos de "Jim das Selvas" e de "Hopalong Cassidy".

Fundiram essas filigranas ao arquétipo de 007, acrescentaram dados de História e Arqueologia, e edificaram a figura de Indiana, originalmente pensado para Tom Selleck, o Magnum da TV, e, depois, confiado ao intérprete de Han Solo, o hoje octogenário Harrison Ford. Esse mesmo toque de Proust se viu em "No Templo da Perdição" (1984) e no magistral "A Última Cruzada" (1989), que ainda trouxe Sean Connery (1930-2020) para viver o pai de Indy - numa catarse da relevância que James Bond teve na construção do personagem.

Diante desse histórico, de três filmes magistrais e um quarto longa um tanto decepcionante, o diretor James Mangold ("Ford vs. Ferrari") assumiu o fardo de dirigir uma quinta aventura de Dr. Jones com a incumbência de dar a ela o chame das legacy sequels, termo usado para continuações tardias, como "Top Gun: Maverick" (2022). Mas para um artista que deu um banho de loja em Stallone em "CopLand" (1997) e adicionou amargura às histórias dos X-Men, no doído "Logan" (2017), a missão não seria impossível. Seu "A Relíquia do Destino" é um primor, a despeito do que uma malfada arrecadação sugira.

Vertiginosa do tenso começo ao encantador fim, calcando-se em efeitos digitais gráficos pra rejuvenescer Ford nas sequências iniciais, "Indiana Jones e a Relíquia do Destino" retoma o tom de matinê supracitado, recobrando o ritmo que havia em "A Última Cruzada", o apogeu da franquia. Os vilões vistos em "The Dial of Destiny" (título original) são nazistas, soldados da SS dos mais cruéis. Um cientista formado pelo III Reich, Dr. Voller, muito bem interpretado por Mads Mikkelsen (Melhor Ator em Cannes por "A Caça", em 2012), é a encarnação do Mal dessa milionária aventura feita numa parceria da Disney com a Paramount. Voller segue sempre acompanhado de um capanga cruel, Klaber, vivido por Boyd Holbrook, ator assinatura de Mangold.

Inconformado com decisões equivocadas de Hitler, Voller quer adquirir um artefato - misto de bússola e ábaco - desenhado por Arquimedes, que pode, supostamente, fazer quem o utiliza voltar no tempo, encontrando uma fissura no cosmos. A peça daria a ele meios de assegurar a vitória ao Eixo, mas Indiana Jones não quer que um instrumento tão potente caia nas mãos erradas. O problema: ele acaba de ser largado pela mulher, Marion (Karen Allen), e foi forçado a se aposentar da universidade. Como é comum na obra (autoral) de Mangold, ele é um herói em fase de desterro. Um incidente incitante (seja um evento ou a chegada de um personagem) vai mudar essa rotina de derrota em que ele se encontra. O tal incidente é a afilhada há muito sumida do arqueólogo, Helena, uma contrabandista (ou quase isso) vivida por Phoebe Waller-Bridge (da série "Fleabag"). A sua personagem esbanja bom humor durante todo o filme, mas o pique de tensão da narrativa jamais cai, pelo contrário. Surpreende o modo sofisticado como Mangold emprega a linguagem audiovisual, por meio de elipses criativas, calçado numa fotografia de colorido rascante de Phadon Papamichael.

Que a Disney cuide bem do Dr. Jones.

 

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