Por: Rodrigo Fonseca | Especial para o Correio da Manhã

O uivo de Scorsese

Leonardo DiCaprio protagoniza 'O Lobo de Wall Street' | Foto: Divulgação

Visto por cerca de 90 mil pagantes no Brasil em duas semanas, "Assassinos da Lua das Flores" já faturou US$ 85 milhões pelo mundo afora, candidatando-se ao Oscar 2024. Seu sucesso gera uma busca por títulos anteriores de seu realizador, sobretudo seu trabalho mais pop desde a década de 1960: "O Lobo de Wall Street", que comemora uma década de lançamento. Sua presença na grade da Amazon Prime mobiliza a streaminguesfera.

Um dos maiores sucessos de bilheteria da trajetória autoral de Scorsese, com um faturamento estimado em US$ 406 milhões, "The Wolf of Wall Street" preenche uma cédula que o octogenário cineasta nova-iorquino - um dos maiores diretores da História - jamais preencheu com propriedade: a cédula do sexo. Os votos do realizador na sexualidade sempre oscilaram entre o voto nulo e a discrição extrema, como um fruto da névoa católica opressora em sua criação em Little Italy. "Cabo do medo" (1991), encarado por parte da crítica como um thriller de terror, havia sido seu flerte mais direto com o erotismo. Mas, em 2013, a história (de timbres e tintas reais) de Jordan Belfort, o investidor da bolsa que chegou à condição de milionário entre fraudes e macetes escusos, serviu para excitar Scorsese. Situações atípicas em sua obra e na de seus contemporâneos de Geração Easy Rider (a leva de realizadores responsável por uma hemodiálise audiovisual nos EUA de 1967 a 1980, com filmes de engajamento político e crítica social) pontuam a transposição para as telas da jornada corrupta de Belfot, a começar por uma vela usada para fazer um fio-terra no personagem encarnada com majestosidade por Leonardo Wilhelm DiCaprio. Cenas de transas coletivas e muita nudez - elementos antes incompatíveis com o olhar de mundo cristão de Scorsese - entram aqui num desfile de ousadia sem pudor. É o Scorsese mais libertário, mais bem resolvido com seus tabus pessoais, mais debochado (e sem culpa) quanto ao uso de entorpecentes. É, enfim, um trabalho de maturidade de quem já amadureceu faz décadas. Por isso, é tão estimulante ver o diretor agir como um adolescente púbere encantado com a força do desejo.

É em meio a turbilhão sensual (e sensorial) que Scorsese promove o que se chama nos estudos de dramaturgia de "narrativa de segundo campo". Trata-se de uma narrativa onde o foco não é a evolução e a correção do caráter do personagem e sim o quanto a sua jornada anti-heróica pode render de discurso sobre a sociedade, ou no caso, sobre o microcosmo chamado USA, os Estados Unidos do neoliberalismo. E Belfort, na releitura abusada de DiCaprio,é a síntese do cógito neoliberal. Scorsese abre sua experiência sexualizada detonando o limite de fabulação que separa filme e realidade: Belfort olha para a câmera e conversa conosco, deixando visível um distanciamento da mentira que criou ao seu redor para subsistir. Ali, Scorsese deixa de ser o intermediário de seu conto moral e faz plateia e protagonista conversarem sem interlocução de ninguém.

Com olho nos olhos do espectador, Berlfort deixa claro a sua cupidez, a sua voracidade: de origem pobre e família fracassada, quer absorver o mundo inteiro agora que tem idade para legislar sua própria vida. E vai engolir o que houver ao seu redor. Autor que é, Scorsese sempre volta ao mesmo tema: há sempre um cordeiro a ser imolado em nome de um deus menor do que o Deus católico, no caso, aqui, o deus-mercado, o deus-capital.

 

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