Por: Rodrigo Fonseca (Especial para o Correio da Manhã)

Sobrevida para o Nosferatuda Marvel

Jared Leto vive o Dr. Michael Morbius das HQs nas telonas | Foto: Divulgação

Orçado em cerca de US$ 80 milhões, "Morbius" faturou US$ 167 milhões nas bilheterias em 2022, o que desapontou as expectativas dos exibidores em torno de uma mistura talhada para lotar salas entre filmes de vampiros e filmes de super-herói. O tempo, contudo, encontrou um lugar de destaque para o filme na streaminguesfera.

Presente hoje na grade da HBO Max, o longa vai para a Amazon Prime em breve. Paralelamente, nas bancas, um encadernado da Panini com aventuras do sanguessuga desperta a atenção do público leitor.

Refratário ao bom-mocismo convencional dos filmes derivados de HQs, preferindo a matriz de horror e a medula existencialista inerentes às narrativas de vampiros, "Morbius" lembra muito "Lobo" (1994), pérola de Mike Nichols (1931-2014) que usava a licantropia (maldição capaz de transformar pessoas em lobisomens) como metáfora para a evolução da espécie e pra fome. Fosse a fome desmedida por bem-estar, esta encarnada por um alquebrado editor de livros vivido por Jack Nicholson; fosse a fome desenfreada por Poder a qualquer custo, traduzida no Iago desempenhado por James Spader, enciumado do saber de seu outrora tutor. Há um caso bem parecido na inteligente transposição que o sueco de origem chilena Daniel Espinosa (de "Protegendo o Inimigo") fez do vilão (por vezes anti-herói) criado em 1971 nas páginas do gibi "The Amazing Spider-Man #101", onde apareceu como algoz do Homem-Aranha. O Nicholson deste engenhoso thriller de gente superpoderosa (mas não de super-heróis) é o Dr. Michael Morbius, um hematologista que recusou um prêmio Nobel por crer que seus experimentos em busca da criação de sangue artificial não estavam prontos para serem laureados - papel dado a um inspiradíssimo Jared Leto. Já o Spader desta resposta da Marvel à DC Comics é Milo, personagem brilhantemente encarnado por Matt Smith, o Dr. Who. Assim como Morbius, Milo nasceu com uma doença sanguínea rara, que limita seus movimentos e pode parar seu coração a qualquer momento. Mas não sua ambição.

Regado a adrenalina do começo ao fim, em sequências de ação apolíneas, calçado em uma direção de arte exuberante (assinada por Stefania Cella e James Lewis), "Morbius" surpreende em múltiplas latitudes sobretudo ao devolver a Marvel ao lugar onde começou sua trajetória de glórias (e fortuna) no cinema. Seu império começou com um sugador de sangue, o Blade de Wesley Snipes, figura que está sendo repaginada agora por Mahershala Ali. Em 1998, falar de histórias em quadrinhos em Hollywood era um assunto proscrito, graças ao vergonhoso fiasco que foi "Batman & Robin" (1997), com George Clooney (Homem-Morcego) versus Arnold Schwarzenegger (Sr. Frio). Foi então que Snipes bateu na Casa das Ideias (apelido da Marvel no mercado editorial) propondo uma adaptação do Pantera Negra. A editora negou, alegando que aquele herói era icônico demais e que aquele não era o momento para ele.

Snipes solicitou outras opções de heróis negros. Sugeriram Blade, um coadjuvante do Homem-Aranha, assim como Morbius, classe B. Como essa indicação do staff marvete era uma figura vampírica, e figuras deste tipo, desde 1922, quando o realizador F.W. Murnau (1888-1931) lançou "Nosferatu", lotam salas de exibição, Wesley embarcou na ideia.

Levou-a às telas, com direção de Stephen Norrington, e emplacou um fenômeno que ninguém na indústria esperava. Abriu ali caminho não só para que a Marvel tivesse uma apoteose no cinema, como para que os mais variados quadrinhos fossem assimilados pelo audiovisual, gerando uma fonte de dramaturgia inesgotável, que chegou à streaminguesfera devastadora, vide a brilhante série "Cavaleiro da Lua", na Disney . Embora "Morbius".

Sua força vem de um bom protagonista, Leto, injustamente maltratado em seu belíssimo trabalho em "Casa Gucci" (2021). Dublado por aqui por talentos como Clécio Souto, Leto injeta angústia na composição de Morbius que, na trama, investiga espécies de morcego pra encontrar a cura pra sua doença até se contaminar com seus experimentos e virar um monstro sedento por hemácias. Monstro dotado de velocidade sobre-humana, poder de voo, garras afiadíssimas e força descomunal. O problema é que Milo também terá tudo isso. E será uma guerra... entre amigos e entre grandes atores.

 

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