Por: Rodrigo Fonseca

Minissérie 'Subúrbia' ganha a grade do Globoplay

Erika Januza ganhou notoriedade ao protagonizar 'Subúrbia', minissérie do realizador de 'Lavoura Arcaica' | Foto: Divulgação

Por Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Salivando pela estreia de "A Paixão Segundo GH", a volta de Luiz Fernando Carvalho ao cinema após um hiato de 22 anos, iniciado após a consagração de "Lavoura Arcaica", o audiovisual pode matar as saudades do realizador mais inventivo que a TV brasileira já conheceu ao conferir o seminal "Subúrbia" (2012), via streaming. A minissérie ecoou forte na TV, há cerca de uma década, ao trazer para as telas um debate sobre racismo, exclusão e a resiliência das populações negras.

Sua trama promovia uma viagem no tempo. Surfava na História até um passado em que DJs e MCs imperaram como reis na Madureira. Seu foco é a década de 1990. Seu recorte é o período no qual os subúrbios do Rio de Janeiro buscavam se desligar da violência imposta pelas guerras do tráfico tentando entender a diferença entre o charme e o funk.

Bonita e elegante, essa tentativa de prazer (e de resistência, sem alienação) encontrou aconchego nas ondas curtas da Rádio RPC e no som dos bailes, pois a turma dos morros e dos conjuntos habitacionais só queria ser feliz e andar tranquilamente no asfalto e na favela.

Com seu Mercadão sempre lotado, o bairro fervia no imaginário da Zona Norte (ZN) como uma princesinha do subúrbio, fervilhante sob os 40 graus do verão, temperada a mormaço mesmo na brisa do inverno. Era uma época em que os cines do Madureira Shopping enchiam de gente para ver "Independence Day" (1996) e "True Lies" (1994).

Madureira era uma princesinha virgem para a televisão brasileira no que envolvia (então) a teledramaturgia, uma ficção isenta do espírito de denúncia dos telejornais. Uma princesinha funkeira que foi reconstituída em toda a sua beleza multicolorida, em "Subúrbia", que Luiz Fernando Carvalho, exibiu na TV Globo. Sua estrela, Érika Januza, fez sua estreia naquele exercício de sociologia e poesia.

Em estado de graça em cena, a atriz vive Conceição, uma jovem egressa do interior que foge de casa ainda criança e vai morar no Rio de Janeiro. Após uma tentativa de violência sexual na casa de sua patroa, ela vai morar numa área suburbana onde encontra conforto na casa de uma família e flerta com o amor na figura de Cleiton (Fabrício Boliveira). Mas a brutalidade das forças do tráfico vai assombrá-la, ao mesmo tempo em que os bailes comandados pelo Malrboro Man chamado Costa (Paulo Tiefenthaler) garantem a ela uma nova perspectiva.

Ao regressar de sua jornada pela suassúnica Taperoá, cidade de "A Pedra do Reino" (2007), Carvalho, como diretor, mudou a rota de sua peregrinação pela cultura brasileira. Ele afastou-se por um momento da terra de chão batido de seus trabalhos de maior sucesso, como "Hoje é dia de Maria" (2005) e "Renascer" (1993), e foi pisar no asfalto. Sob os acordes de Jimi Hendrix, "Capitu" (2008) expandiu as fronteiras estéticas do realizador para um quadrante urbano, fundido a cimento armado. Em seguida, em 2010, bebeu as águas de Freud (com humor) e fez "Afinal, o que querem as mulheres?", seu momento Woody Allen, com Michel Melamed em seu apogeu.

Já "Subúrbiu" marca sua obra com um movimento de entradas e bandeiras pela metrópole carioca. Na minissérie, ele avançou por vielas e avenidas do Rio de Janeiro preocupado em desvelar seus tesouros simbólicos para, a partir deles, mapear forças e fraquezas diluídas no caldeirão de nossa cultura. Celebrou potências de uma cultura que os impeditivos do racismo institucional do país não conseguiam travar. Pouco a pouco, a viagem pelo concreto ofereceu a ele uma nova perspectiva: cair na real(idade). Um real quase documental. Um real de CNN, de cinejornal, distinto de seu estilo barroco e de tintas operísticas.

No tamborzão supersônico do funk, "Subúrbia" é o "Amarcord" de uma periferia mais próxima da Zona da Leopoldina e da Linha Amarela do que da Zona Sul. O projeto foi idealizado e roteirizado em uma simbiose com o escritor Paulo Lins, autor de "Cidade de Deus". A ideia era fugir da perspectiva do bangue-bangue sociológico trazido pelo estilo de filmar chamado Favela Movie e apostar num exercício lúdico de rememorar a identidade sensorial da periferia. É o que se espera do aguardado "Kasa Branca", de Luciano Vidigal, que está por vir. Para o alcance dessa dimensão lúdica, Luiz Fernando rompeu com o discurso da ficção oficial - viciada hoje em um discurso de "Classe C", uma realidade virtual movida pelo consumo e retratada pela chave do excesso - e buscou uma dramaturgia sem prosaísmos. Uma dramaturgia capaz de retratar a poesia cotidiana das mães que ficam no portão esperando a chegada dos filhos que pegam trem e ônibus para poder voltar para casa.

Em vez de usar como parâmetro visual cânones da pintura europeia ou artífices estrangeiros da pintura, Carvalho se inspirou no fotojornalismo, com especial referência aos retratos clicados por Walter Firmo. O resultado foi uma quebra das convenções plásticas da TV, numa sociologia de afetos.