Em nome de Deus, do fio da espada, do calor do chumbo
Solomon Kane, puritano que guerreava contra demônios e homens maus na prosa de Robert E. Howard, volta a mobilizar as HQs, ampliando seu público no Brasil em duas editoras
Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Éum sinal dos tempos... destes tempos de jihadismo religioso em terras brasileiras, nos quais credos elegem políticos e geram intolerância, o sucesso que cerca o retorno de Solomon Kane, o Puritano, às bancas, livrarias e lojas virtuais. É um sinal, sobretudo, de sagacidade da arte, ao sacar a necessidade de um vigilante ligado à fé. Duas das mais prolíficas grifes do mercado editorial brasileiro de HQs, a Panini e a Mythos, trazem para o português as peripécias desse misto de clérigo e paladino, de rapieira (sabre de mosqueteiro) e garrucha em punho, calçado pelas Sagradas Escrituras em seu coração.
Os quadrinhos viram seu sucesso nos anos 1970 e 80, sobretudo quando a Marvel resolveu ilustrar e roteirizar os contos de Robert E. Howard (1906-1936), seu inventor, publicados a partir dos anos 1920 na revista "Weird Tales". Rei Kull e Conan, o Bárbaro são as criações mais pop desse escritor, mas Solomon anda avançando casas no tabuleiro global da fama. Sua aguerrida figura chegou aqui de carona na "Espada Selvagem de Conan", revista tamanho grande da ed. Abril em P&B, com desenhos de bambas como Ernie Chan. Agora, esse soturno súdito de Jesus ganha providencial reforço das editoras brasileiras, em almanaques que permitem olhar simultaneamente para seu presente e para o seu passado nas artes gráficas.
A Panini acaba de lançar "Solomon Kane: O Anel da Serpente", traduzindo material produzido originalmente pela Titan Comics, escrito e desenhado por Patrick Zircher. A Mythos, por sua vez, investiu na recuperação da fase da Dark Horse com "Solomon Kane Omnibus", calhamaço de 400 páginas que reúne aventuras produzidas a partir de 2008. É uma dobradinha rara para um personagem que, embora nascido antes de Conan, jamais desfrutou entre nós da mesma regularidade editorial do guerreiro cimério.
"Personagem num estado de busca, Solomon Kane é uma espécie de exorcista", diz o livreiro Higor Lopes, responsável pela loja Mundo Mythos, oásis de quadrinhos em São Paulo, na Rua Augusta. "Como Robert E. Howard, seu criador, suicidou-se muito novo, na casa dos 30 anos, a gente não tem noção do potencial que esse clérigo poderia atingir em seus contos. Os que ele publicou servem de base para as adaptações de HQ, como as da Dark Horse, que a Mythos lançou aqui. Esgotou tudo rápido. Estamos agora trabalhando numa reimpressão para o final deste mês".
Nos EUA, a Marvel editou um tijolão com as aventuras de Solomon, que pode até ser importado, mas custa uma baba em real, por conta de sua extensão: 624 páginas. As novas edições nacionais são beeeeeem mais em conta. Também não se paga um descalabro pela compilação da prosa de Howard sobre seu armado e violento adorador de Deus, compilada no Brasil em livro pela editora Generale, em 2015.
A estreia literária de Solomon ocorreu com "Red Shadows", em agosto de 1928. Vestido como um pregador cristão, armado de espada e pistolas e movido por uma concepção implacável de justiça (sobretudo contra adoradores de demônios), ele é um peregrino inglês que agiu (até onde se sabe só na ficção) entre o fim do século XVI e o começo do XVII. É nesse período em que atravessa Europa e África enfrentando escravagistas, contrabandistas, feiticeiros, criaturas sobrenaturais e toda sorte de manifestação do Mal. Quando "Weird Tales" começou a publicar Conan, em 1932, Howard já era apresentado aos leitores como autor conhecido justamente pelas histórias daquele sombrio "redentor de injustiças".
A genealogia ajuda a entender por que Solomon permanece tão sedutor, quase cem anos após ser publicado pela primeira vez. Sua segunda vida começou nas bancas americanas em 1973, quando a Marvel publicou uma adaptação de "Skulls in the Stars" em "Monsters Unleashed" nº 1, com roteiro de Roy Thomas e desenhos de Ralph Reese. Kane logo passaria pelas páginas de "Dracula Lives!", "Kull and the Barbarians", "Marvel Premiere" e, sobretudo, "The Savage Sword of Conan". Entre 1976 e 1994, tornou-se presença recorrente na revista em preto e branco do cimério, com histórias assinadas ou adaptadas por nomes como Roy Thomas, Don Glut e Doug Moench e desenhadas por artistas como Howard Chaykin, Neal Adams, Steve Gan e David Wenzel. Entre 1985 e 1986, ganhou ainda a minissérie própria "The Sword of Solomon Kane", em seis números.
Nos Estados Unidos, a Marvel havia espalhado as aventuras de Kane por diferentes títulos e formatos desde os anos 1970, até que a Dark Horse iniciou um novo ciclo em 2008. Vieram "The Castle of the Devil", "Death's Black Riders" e "Red Shadows", combinando adaptações, conclusões de fragmentos deixados por Howard e novas construções ligadas à sua mitologia. É esse conjunto que agora serve de matéria-prima para o "Solomon Kane Omnibus" da Mythos. O volume brasileiro tem 400 páginas e abre com "O Castelo do Diabo", com Scott Allie no roteiro, Mario Guevara na arte e Dave Stewart nas cores. A edição compila justamente os arcos "Castle of the Devil", "Death's Black Riders" e "Red Shadows", além de extras.
Já "Solomon Kane: The Serpent Ring", editado pela Panini numa compilação de 112 páginas, de capa cartão, lançada por R$ 39,90, lemos uma viagem ao sul europeu e aos canais de Veneza numa busca pelo lendário Anel da Serpente de Thoth-Amon. O objeto cria ponte saborosa com a mitologia de Conan: a promessa de poder do artefato corrompe corações. O de Solomon, não. Jamais. A fé não deixa.
No cinema, essa capacidade de misturar aventura histórica e horror já havia motivado uma tentativa de franquia. Em 2009, James Purefoy encarnou o personagem em "Solomon Kane - O Caçador de Demônios", dirigido por Michael J. Bassett. Há como vê-lo na Apple TV.