Absolute para o alto e avante

Novo selo da DC Comics que redefine o Batman, a Mulher-Maravilha o Superman e outros ícones dispara nas vendas internacionais de quadrinhos e leva a concorrente Marvel a reagir

Por

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Até 2025, quando o selo Absolute, da editora Panini Comics, chegou ao Brasil, sempre que se perguntava a um jornaleiro do Rio que quadrinho vende mais em nossas bancas, o guardião mascarado de Gotham City figurava na resposta, ainda que sempre precedido por um "mas...": "quando se trata de revistinha para criança ou pra galera entre 15 e 20, o negócio é 'Naruto', é 'One Piece', são os japoneses".

Essa resposta tomou novos rumos depois que a reconfiguração dos heróis conhecidos entre os brasileiros como os Superamigos (ou Liga da Justiça) — no caso, o Homem-Morcego, o Homem de Aço e a Princesa das Amazonas — foi submetida a uma revisão gráfica (e também dramatúrgica) que redesenhou suas origens, seu visual, seus mundos e até seus códigos de justiça.

Não há dado relativo que modere o fenômeno em escopo mundial da saga Absolute, com seu Batman ao belo canto, tamanho GG, de lâminas afiadas em punho. Ajax, o Caçador de Marte, foi por esse bonde adentro também, e hoje inspira um culto lisérgico em torno de um detetive que carrega um marciano em seu inconsciente. Tem um Flash novinho e uma nova saga dos Lanternas Verdes na qual o caráter de Hal Jordan, o mais famoso portador do anel esmeralda, sucumbe a uma força tenebrosa. Tudo isso vende. E vende muito.

Nos Estados Unidos, "Absolute Batman", escrito por Scott Snyder e desenhado por Nick Dragotta, tornou-se o maior fenômeno editorial do mercado americano desde a pandemia. A edição de estreia ultrapassou as 400 mil encomendas no mercado direto especializado, número raro para uma HQ contemporânea. Ao lado dela, "Absolute Superman", de Jason Aaron, e "Absolute Wonder Woman", de Kelly Thompson, passaram a frequentar regularmente o topo dos rankings mensais de vendas, deslocando inclusive alguns mangás que dominavam as listas havia anos.

O sucesso foi tão expressivo que a DC ampliou rapidamente o projeto. Além dos títulos já publicados no Brasil, o universo Absolute passou a incorporar personagens como o Flash, escrito por Jeff Lemire, o Lanterna Verde de Al Ewing e Jahnoy Lindsay, e o já citado Ajax, aqui tratado como Caçador de Marte, em saga de Deniz Camp e Javier Rodríguez. Tais lançamentos ajudaram a consolidar a ideia de que a linha não era um simples evento editorial, mas uma reconstrução completa do imaginário da editora para uma nova geração de leitores.

O fenômeno chama atenção porque surge num período em que os quadrinhos japoneses pareciam inalcançáveis. Desde a pandemia, séries como "One Piece", "Naruto", "Chainsaw Man" e "Jujutsu Kaisen" passaram a dominar livrarias em praticamente todo o planeta. O selo Absolute representa a primeira reação realmente consistente da DC Comics a esse domínio, apostando em versões mais agressivas, sombrias e visualmente ousadas de personagens que pareciam esgotados após décadas de continuidade.

Se a DC encontrou seu novo Batman, também prepara novos investimentos em personagens de segundo escalão. Entre eles está o Arqueiro Verde. Embora a série "Absolute Green Arrow" ainda não tenha chegado oficialmente ao mercado brasileiro, o título já desperta enorme curiosidade entre leitores e colecionadores por sua abordagem mais sombria do personagem, que equipara Oliver Queen (alter ego do herói) a um seria killer de bandidos. A expectativa não é pequena. Oliver (ou Ollie como é chamado por tietes) carrega uma base de fãs consolidada graças ao sucesso da série televisiva "Arrow", exibida durante oito temporadas e responsável por transformar um herói tradicionalmente secundário numa figura de prestígio internacional. A nova encarnação Absolute, escrita por Pornsak Pichetshote e desenhada pelo gaúcho Rafael Albuquerque, promete radicalizar ainda mais esse perfil, tratando do assassinato de magnatas corruptos por um Robin Hood macabro.

A resposta da Marvel, editora rival da DC desde 1961, veio por outro caminho, sintonizado com as séries da editora na Disney e com os filmes de seu estúdio de cinema que prometem sacudir bilheterias. Em vez de reinventar seus heróis do zero, a editora apostou na força de suas marcas mais tradicionais. O principal chamariz foi a chegada, em abril (nos EUA), de "Demolidor" ("Daredevil") n° 1, escrito por Stephanie Phillips e desenhado por Lee Garbett. É uma retomada da natureza mais feroz do vigilante cego da Cozinha do Inferno, nos moldes do que o cultuado quadrinista Frank Miller fez nos anos 1980. Paralelamente a ele, bomba a saga Death Spiral, com o Homem-Aranha (que retorna às telonas no fim de julho) e chega quente o arco "Armageddon", com uma nova safra dos Vingadores. Nela, tudo se passa após a queda do Doutor Destino (que ganha longa-metragem em dezembro, com Robert Downey Jr.. Com a debacle dele, o general Thunderbolt Ross assume o controle da nação chamada Latvéria. Rebatizando o país como "Nova América", ele pretende lançar uma cruzada global para impor a democracia ao mundo, começando por uma pátria livre chamada Symkaria. Contra a vontade da secretária-geral das Nações Unidas, Renata Riani, os Vingadores e o Quarteto Fantástico se unem para deter Ross, enquanto Steve Rogers (o Capitão América) permanece em coma após um confronto recente com o militar. À medida que os heróis recrutam a ajuda do supersoldado David Colton, o Conselho de Segurança da ONU vota pela formação de uma coalizão militar para enfrentar Ross, que se transforma no Hulk Vermelho.

No Brasil, a Marvel nos deu a melhor HQ do ano, em termos estéticos: "Ultimate Wolverine: O Soldado Invernal", de uma equipe de artistas que une Alessandro Cappuccio, Alex Lins e Chris Condon. Trata-se de uma versão do carcaju de garras de adamantium à sombra geopolítica da extinta URSS. Tão selvagem quanto o X-Man imortalizado aos olhos da cinefilia pelo ator Hugh Jackman é o Justiceiro, que promete sacudir às vendas HQs deste mês, nos Estados Unidos, com o lançamento de "Punisher" n° 6, escrito por Benjamin Percy e desenhado por Jose Luis Soares Pinto, de carona no média-metragem desse vigilante, com Jon Bernthal, na Disney .

Embora a revolução Absolute pareça inédita, a indústria dos quadrinhos já viveu explosões semelhantes. Na primeira metade do século XX, Superman, Batman, Shazam e Capitão América transformaram os comic books em fenômenos de massa. Durante os anos 1940, muitas revistas ultrapassavam regularmente a marca de um milhão de exemplares vendidos por edição. Era a chamada Era de Ouro dos Quadrinhos, quando os super-heróis se consolidaram como ícones da cultura popular americana.

O maior sucesso individual da história viria décadas depois. Em 1991, "X-Men #1", da Marvel Comics, vendeu cerca de 8,2 milhões de exemplares. Logo atrás aparecem "Star Wars #1", de 1977, e "Superman #75", mais conhecido como "A Morte do Superman", que alcançou aproximadamente 6 milhões de cópias. São números que permanecem inalcançáveis para qualquer publicação contemporânea.

Mas o mercado não vive apenas de lançamentos. Em janeiro deste ano, uma cópia de "Action Comics #1", revista de 1938 que apresentou Superman ao mundo, foi negociada por US$ 15 milhões, tornando-se a HQ mais cara da história. O valor supera o preço de muitas obras de arte e confirma o status de relíquia adquirido pelos quadrinhos da Era de Ouro.

Na França, a maior surpresa editorial de 2026 não veio de um gaulês, mas de um brasileiro. O álbum "Eldorado", do niteroiense Marcello Quintanilha, tornou-se um dos primeiros grandes êxitos comerciais do ano no mercado francófono, ampliando ainda mais o prestígio internacional do autor de "Escuta, Formosa Márcia". A obra acaba de ganhar edição brasileira pela Editora Veneto, reforçando a posição de Quintanilha como um dos quadrinistas nacionais mais respeitados no exterior.

Isso não significa que os gigantes tradicionais tenham perdido força. Um dos álbuns mais recentes do gaulês mais amado das HQs, "Astérix et l'Iris Blanc" ("Astérix e a Íris Branca"), lançado no fim de 2023, ultrapassou a marca de 1,6 milhão de exemplares vendidos apenas na França em seus primeiros meses. Já "Astérix en Lusitanie", lançado no fim de 2025, manteve a série entre as maiores coqueluches editoriais do continente, preservando um legado iniciado por René Goscinny e Albert Uderzo há mais de seis décadas.

Já no Brasil, embora não as editoras se esquivem quando se investiga números de venda, os mangás dominam as listas de livrarias. Ainda assim, nenhuma marca nacional rivaliza historicamente com a força da Turma da Mônica. Criada por Mauricio de Sousa, a franquia acumula centenas de milhões de exemplares vendidos desde os anos 1960 e permanece como o maior fenômeno editorial da história dos quadrinhos brasileiros.

Hoje, contudo, a fotografia do mercado mundial revela algo que parecia improvável há poucos anos: depois de uma década em que os mangás pareciam invencíveis, um Batman musculoso, brutal e reinventado devolveu os super-heróis americanos ao centro da conversa. E, pela primeira vez desde a pandemia, a pergunta sobre qual HQ vende mais já não tem uma resposta automática vinda do Japão.