Spider-Noir ganha série com Nicolas Cage e clima de cinema noir
Produção da Prime Video adapta o Homem-Aranha alternativo para uma história sombria, adulta e inspirada nos clássicos do gênero policial
Derivada de uma linha editorial mais adulta (e estilizada) da Marvel Comics, criada em 2009, a série "Spider-Noir", recém-chegada (mas já muito bem instalada) na Prime Video da Amazon, dá um tratamento visual e dramatúrgico nostálgico, à la Humphrey Bogart, à versão alternativa do Homem-Aranha concebida por David Hine e Fabrice Sapolsky, com desenhos do italiano Carmine Di Giandomenico. A primeira HQ saiu nos EUA há 17 anos, ambientando o universo de Peter Parker numa Nova York sombria da Grande Depressão.
Em vez do fotógrafo nerd que vira herói depois de ser picado por um aracnídeo radioativo, o vigilante aqui é Ben Reilly, olho-vivo do ramo dos detetives, numa Nova York recém-saída da Grande Depressão, que tem um titã do cinema, Nicolas Cage, no papel principal.
Ganhador do Oscar por "Despedida em Las Vegas", há 30 anos, o ator, cujo nome real é Nicolas Kim Coppola (sim... ele é parente de Francis Ford... é sobrinho do cineasta), é um fã assumido das artes gráficas e trabalhou com elas em "Kick-Ass" (2010) e nas animações "Aranha-Verso" (2018-2023).
No Brasil, a saga desse Aranha encapotado e de chapéu foi publicada inicialmente pela Panini Comics, reunida em encadernados dedicados ao filão noir dos quadrinhos marvetes. O seriado mergulha no imaginário dos policiais expressionistas dos anos 1940 e 1950, acompanhando uma versão envelhecida e desencantada de Ben Reilly, com Cage dublado por Márcio Simões.
A produção dialoga diretamente com clássicos como "Relíquia Macabra" ("The Maltese Falcon", 1941), "Pacto de Sangue" ("Double Indemnity", 1944), "Casablanca" (1942), "O Terceiro Homem" ("The Third Man", 1949) e "Jejum de Amor" ("His Girl Friday", 1940), além de cruzar referências de screwball comedy com o universo dos super-heróis.
Em conversa com jornalistas internacionais, incluindo o Correio da Manhã, o criador dessa adaptação serializada para o audiovisual (showrunner, como se diz no jargão televisivo), Oren Uziel explicou que a série nasceu da mistura entre os quadrinhos e o cinema noir clássico.
"A gente pegou elementos dos quadrinhos e dos filmes noir para construir uma história longa em oito episódios", afirmou. Segundo ele, a proposta era transformar uma narrativa curta das HQs numa experiência sensorial live action mais densa e emocional.
Responsável pelos roteiros de "Spider Noir", Uziel confiou à direção a quatro cineasta: Harry Bradbeer, Alethea Jones, Nzingha Stewart e Greg Yaitanes. O produtor confirmou ao Correio da Manhãque o projeto também bebe diretamente do humor dos anos 1930 e 40.
"Você não leu demais, não. Uma das minhas filhas se chama Hildy por causa de 'Jejum de Amor'", contou, lembrando ainda que tem 'A Ceia dos Acusados', de 1934, como influência central na dinâmica entre Ben Reilly e Janet, interpretada por Karen Rodriguez. "O noir abrange décadas e décadas, países e países. Há um noir japonês brilhante que podemos explorar, há o noir latino-americano. Há noir de todos os lugares, mas há também o legado do cinema noir americano e do cinema noir britânico. Uma das coisas que adoro em fazer esta série é que tenho todo o cânone tanto dos filmes de quadrinhos quanto do noir para me inspirar. E a maioria das pessoas não está familiarizada com isso, então é realmente uma ótima oportunidade. E aquela época em que ambientamos a série, 1933, se avançarmos alguns anos, o mundo só fica mais caótico e repleto de conflitos e oportunidades para contar histórias. Portanto, há muito espaço para continuar nessa linhagem".
Uziel explicou ainda que decidiu afastar o personagem das versões adolescentes já exploradas no cinema. "Eu não sou mais um garoto do ensino médio. Achei mais interessante mostrar o que acontece com alguém que viveu isso muitos anos depois", disse. Para ele, a série investiga as marcas emocionais deixadas pelo heroísmo ao longo da vida. O P&B é a expressão estética de uma Nova York de ambiguidades morais. "A gente testava tudo: roupa, parede, até a cor do uísque no copo", revelou Uziel, que alcançou o feito de convencer Cage a pedir licença das telonas e investir nas plataformas digitais. "Não existe outro ator que pudesse fazer esse papel desse jeito", afirmou Uziel, dizendo que Cage conseguiu unir o cinismo típico dos detetives noir à vulnerabilidade humana que move o personagem.
Outro destaque do elenco é Brendan Gleeson, o Alastor Moody da franquia "Harry Potter", que foi indicado ao Oscar pelo drama "Os Banshees de Inisherin" (2022).
"Existe uma mistura muito grande de influências e informações dentro da série. O personagem Silvermane, por exemplo, originalmente era um personagem italiano. Mas, quando Brendan Gleason entrou para o elenco, ele acabou ganhando uma identidade irlandesa. Ainda assim, a personagem preserva um pouco dessa energia italiana, transformada em outra coisa", explicou Uziel. "Quando você faz algo assim, existe uma quantidade enorme de artistas envolvidos: os criadores dos quadrinhos, os diretores dos filmes do Homem-Aranha, os realizadores dos noirs clássicos. Tem a minha bagagem, a do Steve Lightfoot, meu corroteirista, e a dos atores também. É difícil apontar uma única influência específica, porque eu venho de Nova York, que é um verdadeiro caldeirão cultural, e acho que a série tem exatamente essa cara."
Além de "Spider-Noir", Cage atravessa 2026 num dos períodos mais movimentados da sua carreira recente. O ator está ligado à nova temporada de "True Detective", da HBO MAX, e também prepara a estreia de "Madden", cinebiografia sobre o lendário treinador e narrador John Madden, dirigida por David O. Russell, ao lado de Christian Bale. Cage ainda mantém negociações para novos projetos ligados ao universo policial e ao terror independente, território que revitalizou sua imagem nos últimos anos. Osgood Perkins, com quem filmou o cultuado "Longlegs - Vínculo Mortal" (2004).
O próximo longa do Homem-Aranha com Tom Holland, "Spider-Man: Brand New Day", tem estreia marcada para 31 de julho de 2026 nos cinemas dos EUA. No Brasil, o longa chega um dia antes. Dirigido por Destin Daniel Cretton, o filme acompanha Peter Parker depois dos eventos de "Homem-Aranha: Sem Volta para Casa" ("Spider-Man: No Way Home", 2021), vivendo sozinho numa Nova York que já não se lembra de sua identidade secreta. A nova produção inaugura uma fase mais adulta e melancólica do herói dentro do Universo Marvel, num pavimento para a estreia de "Vingadores: Destino", com Robert Downey Jr. no papel de Victor Von Doom. O Escorpião é um dos vilões a dar trabalho para o Aranha de Holland, assim como o vigilante Justiceiro, encarnado por Jon Bernthal.