Fantasma, O Espírito Que Anda, chega aos 90 anos
No dia 17 de fevereiro, o pioneiro dos heróis mascarados vira um nonagenário, com revista nova nos EUA, álbuns com seus clássicos no Brasil e biografia de seu criador, o humanista Lee Falk
No dia 17 de fevereiro, o pioneiro dos heróis mascarados vira um nonagenário, com revista nova nos EUA, álbuns com seus clássicos no Brasil e biografia de seu criador, o humanista Lee Falk
Piratas do mundo inteiro, na ficção, tremem de medo ao ouvir o nome do vigilante Fantasma desde o século XVI, pois foi ali pelos idos de 1536 que seu juramento de combate ao crime se fez ecoar do litoral de uma nação africana chamada Bengala... ou Bangalla como se dizia por lá (...um lá fictício). Já bancas de jornal e lojas especializadas em HQs no mundo, Fantasma quer dizer boas vendas. Lojistas seguem a lucrar aos tubos sempre que algo de novo traz de volta o personagem que ajudou a pavimentar a tradição dos heróis mascarados.
A expectativa por um aquecimento do mercado quadrinhófilo é maior às vésperas de o Espírito Que Anda completar 90 anos. O aniversário, que corresponde à estreia de suas tiras gráficas, será comemorado no dia 17 de fevereiro.
Foi nessa data que Leon Harrison Gross (1911-1999), aka Lee Falk, já conhecido pelo mágico Mandrake (criado em 1934), idealizou um guardião da justiça, radicado numa caverna de pedra, resguardado pelo cão Capeto e montado o alazão Herói. O anel com uma marca de caveira carimbava o rosto de seus adversários. Essas aventuras ganham a língua portuguesa numa série de Omnibus (termo que se dá a compilações encadernadas com luxo de centenas de páginas ilustradas) lançados pela Mythos Editora. Seu site já põe à venda álbuns com as tramas "Extorsão em Alto-mar", "Os Tugues" e Ataque ao Orfanato". Gênios do desenho como Sy Barry (hoje com 97 anos) e Wilson McCoy (1902-1961) ilustram essas joias.
Em 2025, a editora americana Mad Cave passou a publicar uma nova série de revistinhas do Fantasma, com roteiro de Ray Fawkes e arte e cores de Russell Mark Olson. É um material precioso para conhecer um combatente do Mal que já teve títulos na Marvel e na DC, saiu aqui pela RGE e pela Globo, e mobilizou a seção de quadrinhos de jornais com tiras da King Features Syndicate. Teve uma série clássica, em P&B, nas matinês dos cinemas, a partir de 1943, e um longa-metragem de 1996, com Billy Zane, que pode ser visto na Prime Video da Amazon.
Fora esse material, no Brasil, a editora Noir lançou um livro obrigatório do pesquisador Gonçalo Junior sobre o pai do Fantasma. Chama-se "Lee Falk - A Lenda dos Quadrinhos" e pode ser comprado no https://www.editoranoir.com.br/.
"Lee Falk foi uma figura rara no panorama cultural do século XX. Para lá de HQs, produziu mais de 500 peças de teatro, encenou quase cem e escreveu cerca de 20 textos dramáticos. A sua vida pessoal, intelectual e política é tão densa que, para muitos estudiosos, ultrapassa em interesse os próprios heróis que criou", conta Gonçalo. "Nos anos 1950, Falk tornou-se o primeiro encenador branco e judeu a montar uma peça de Shakespeare com um elenco totalmente negro, num contexto de segregação racial profunda nos Estados Unidos. Foi um ativista empenhado do movimento dos direitos civis, e a sua filha, advogada nos anos 60, teve um papel decisivo na libertação de líderes negros presos durante protestos e ações políticas".
Autor do seminal "A Guerra dos Gibis - A Formação Do Mercado Editorial Brasileiro E A Censura Aos Quadrinhos, 1933 A 1964", Gonçalo conta ao Correio da Manhã sobre o papel de Falk durante a Segunda Guerra Mundial.
"Ele foi responsável por denunciar que a autobiografia de Adolf Hitler publicada nos EUA tinha sido manipulada, com a remoção sistemática das passagens de ódio contra os judeus. Há também relatos de que teria sido um dos primeiros a alertar as autoridades norte-americanas para a existência dos campos de concentração nazistas", conta Gonçalo. "Falk foi progressivamente reavaliando os elementos racistas presentes nas primeiras histórias que escreveu. Personagens como o príncipe Lothar, inicialmente retratado como um servo submisso de Mandrake, foram reconstruídas para ganhar autonomia, dignidade e complexidade. Esta revisão ética atravessa toda a sua obra".
Em suas primeiras histórias, conforme explica Gonçalo, o Fantasma reproduzia uma visão colonial: era um homem branco que controla povos africanos através do medo, do misticismo e da superstição.
"Com o tempo, Falk reformulou radicalmente esta abordagem. Os africanos — negros, pigmeus, indígenas — deixam de ser figuras 'primitivas' e passam a cúmplices conscientes, inteligentes e estratégicos na luta contra o crime, usando deliberadamente a mitologia do Fantasma como arma simbólica", analisa Gonçalo. "A longevidade do Fantasma assenta na mitologia criada por Falk, a partir da ideia de que o herói nunca morre, mas é uma linhagem que atravessa gerações. Esse conceito de imortalidade, aliado a elementos de magia, terror, medo e ritual, cria um poderoso efeito de encantamento, tanto para aliados como para vilões — e, claro, para os leitores".
Em seu investimento nos quadrinhos, Falk considerava-se o criador do super-herói n°1, antes do último filho de Krypton voar sobre Metrópolis. Gonçalo conta que ele criou "o modelo moderno da grande aventura seriada": histórias contínuas, mitologia própria, vilãs femininas, universos persistentes e heróis com legado. "Antes dele, existiam Mandrake, Flash Gordon, Buck Rogers e a adaptação de Tarzan, mas foi Falk quem organizou esses elementos num sistema narrativo que seria replicado até hoje. Até ao fim da vida, ele reivindicou esse pioneirismo, pois, para ele, Mandrake foi o primeiro super-herói dos quadradinhos, anterior até ao Fantasma", conta Gonçalo. "Nas suas duas primeiras histórias, Mandrake possuía super-poderes explícitos: transformava vilões em animais, objetos em flores, matéria em ilusão. Falk foi um humanista, um inovador e um visionário. Usou a cultura popular para repensar racismo, poder, mito, identidade e justiça. Criou não apenas personagens, mas mundos simbólicos duradouros. Mais do que o pai de Mandrake e do Fantasma, foi um dos grandes arquitetos da imaginação moderna nos quadradinhos".
