Já é Natal na casinha do Snoopy

Os 75 anos do universo 'Peanuts', criado em 1950 por Charles M. Schulz, vai aumentar os lucros do atacado, do varejo e dos fornecedores de iguarias nerd, incluindo streamings

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

'Snoopy Apresenta Uma Canção de Verão' é o mimo da Apple TV aos fãs de Charles M. Schulz

Os 75 anos do universo 'Peanuts', criado em 1950 por Charles M. Schulz, vai aumentar os lucros do atacado, do varejo e dos fornecedores de iguarias nerd, incluindo streamings

Quem passar pela Cardoso de Morais, rua mais famosa de Bonsucesso, ali junto a Praça das Nações, do ladinho da C&A, vai encontrar uma barraquinha de bonecos de crochê em que o item mais procurado é um bonequinho do Snoopy. Periga ser o mais caro (R$ 80) da loja. Pudera... O universo ilustrado do cão metido a aviador, chegado a tiradas existencialistas e parça do passarinho bicho-grilo Woodstock chegou aos 75 anos e, frente a essa efeméride, o mercado - seja o de memorabílias, de brinquedos ou de HQs - só faz dizer "Amém!" para seu criador: Charles Monroe "Sparky" Schulz (1922-2000).

Dê Google em Charlie Brown... ou "Peanuts" (em português, "Amendoim", e em português de versão brasileira Herbert Richers "Minduim") para ver o que aparece. É um mundaréu de estojos, pastas, canecas e pelúcias. A Panini, maior editora de quadrinhos em atividade neste país, lançou faz pouco um álbum de figurinhas com a turma do beagle. Nos streamings, então, sua presença é uma festa, a se destacar o longa que o carioca de Marechal Hermes Carlos Saldanha, o animador de "A Era do Gelo", produziu há dez anos, com foco nas peripécias de Snoopy e seu amigo Charlie.

Divulgação - Kit com caneca e almofada do beagel mais amado do planeta

Essa coqueluche que dura sete décadas e meia se explica fácil. Afinal, quantos personagens infantojuvenis - da literatura, da TV, do cinema ou das revistinhas - você conhece que já disseram frases como "É melhor ter um amor amado e depois perdido do que nunca ter amado na vida". Esse foi o aforisma dito por Charlie Brown (dublado por Marcelo Gastaldi no SBT, nos anos 1980) depois de dançar com seu crush, a Garotinha Ruiva. O grau de dilema existencial que reside nas sacadas cômicas do garotinho careca, que só deseja não ser esnobado em praça pública se conjuga com as DRs entre a aspirante a psicanalista freudiana Lucy e o pianista Schroeder, mais afeito a Beethoven do que aos flertes do benquerer. Não por acaso, a revista "Time" escreveu: "O Snoopy é mais do que um cão: é um filósofo, um poeta e um herói", numa referência ao beagle de ar fofucho que ultrapassou a condição de pet na relação com o supracitado Charlie, do qual é cúmplice e confidente, mesmo sem fala... ou latido. Basta dar uma folheada nas edições de bolso que a L&PM publicou com as crônicas da vida como ela é ao lado de Snoopy. Tá tudo à venda na Amazon... e com precinho de alegrar Papai Noel.

Divulgação - Coletânea original de Charles M. Schulz com tiras dos anos 1950

A editora publicou ainda compilados com as tiras originais de Schulz, que começaram a sair em 2 de outubro de 1950. Em Portugal, a editora Iguana juntou sua obra num álbum bonitão: "#O Indispensável do Snoopy".

O que hoje conhecemos como "Peanuts" teve sua origem em "Li'l Folks", uma tira semanal publicada no jornal da cidade natal de Schulz, o "St. Paul Pioneer Press", de 1947 a 1950. O nome Charlie Brown foi usado pela primeira vez ali. A série também tinha um cachorro muito parecido com a versão do Snoopy do início dos anos 1950. Problemas jurídicos inviabilizaram o uso do título de origem e a United Features Syndicate (UFS) sugeriu o nome "Peanuts" (que Schulz odiou) em referência a uma ala do programa infantil "Howdy Doody", chamada "Peanut Gallery". Sem poder de veto... o artista gráfico engoliu o "amendoim" a seco, mas ficou célebre por seu universo de tipos cheios de personalidade.

Divulgação - L&PM lançou edições de Charlie Brown em formato pocket

Organizadas por décadas nos álbuns da L&PM, os retângulos ilustrados de Schulz nos dão o prazer de reencontrar as múltiplas facetas do cãozinho mais criativo das BDs: parte ás da aviação da Primeira Guerra Mundial; parte escritor fracassado de máquina de datilografar em riste; parte amigo fiel (mas nem sempre obediente); parte Nietzche... em suas digressões filosóficas a olhar o mundo do alto do telhado da sua casinha.

Paralelamente à publicação, saiu um filme de 40 minutos "Snoopy Apresenta: Uma Canção de Verão", feito para a Apple TV. Por lá estão uma variedade de séries e especiais criados a partir de 2018 com a patota de Minduim. Já na Prime Video da Amazon, encontra-se o clássico desenho "O Natal do Charlie Brown", de 1965. O moleque introspectivo chegou a ser dublado por Selton Mello no Brasil.

Divulgação - Bonequinho Fandom do beagle de Charlie Brown em versão astronauta

Em 2024, as tirinhas postadas nos perfis oficiais da Peanuts Worldwide, que administra a marca, alcançaram mais de 22 milhões de pessoas, segundo dados divulgados pela própria empresa. Centrado nas alegrias e frustrações da infância, a obra de Schulz expandiu ao longo das décadas para uma extensa fornada de produtos licenciados. Neste Natal, eles vão lucrar a rodo.