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Em sintonia fina com a memória

Autobiografia de Mu Carvalho refaz meio século de música brasileira, d'A Cor do Som às trilhas sonoras

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Omenino Mu Carvalho queria ser pintor. O piano da mãe e a casa cheia de música decidiram outro rumo. Filho de uma pianista e irmão do baixista Dadi Carvalho, dos Novos Baianos, da pesquisadora de MPB Heloísa Tapajós e do produtor Sérgio Carvalho, ele cresceu ouvindo compositores clássicos e uma família igualmente tomada pela música. Essa trajetória emerge das páginas da autografia "Memórias Sintetizadas", que o músico acaba de lançar.

Aos 16 anos, Maurício Magalhães de Carvalho — o Mu do nome artístico — estreou no grupo Semente, ao lado de Cláudio Nucci, Cláudio Infante e Zé Luiz. Na segunda metade dos anos 1970, compunha já com a mistura de ritmos brasileiros, jazz e rock progressivo que daria fôlego à carreira. Com Dadi, acompanhou Jorge Ben e Moraes Moreira; da banda de apoio do primeiro álbum solo de Moraes nasceu a A Cor do Som, estreando em 1976. Em 1978, no Festival Choro da TV Bandeirantes, o grupo foi a grande revelação com "Espírito Infantil", um choro moderno e elétrico com o tempero da jazz fusion. No mesmo ano, Mu tocou com Gilberto Gil no Festival de Jazz de Montreux.

Dadi, que segurou o baixo na banda do irmão, registra no livro a química do conjunto: "Quando formamos A Cor do Som, as composições do Mu foram determinantes para a sonoridade da banda. O encaixe entre ele e o Armandinho, estabelecido pelo gosto em comum por choros, frevos e baiões, contribuiu para a mistura com o rock and roll". A fórmula sustentou a A Cor do Som por quase meio século — 14 álbuns do grupo e oito solo, num caso raro de formação unida e criativa por tanto tempo.

Em 1990, Mu excursionou com a Legião Urbana, participando do álbum "Música para Acampamentos". Quatro anos depois, contratado pela Rede Globo, tornou-se autor e produtor de trilhas de inúmeras novelas, séries e filmes — ofício que conviveu sempre com a canção: "Terra do Nunca", "Semente do Amor" e "Swingue Menina", com Moraes Moreira, estão entre seus clássicos.

O livro tem prefácio de Tuca Oliveira e apresentações de Gilberto Gil, Juarez Fonseca, Dadi Carvalho e Eduardo Bueno. Gil lembra de "um músico com talento natural", de "absorção do meu estilo", e destaca "uma doçura e uma quietude que me impressionaram". Tuca celebra a chance de reler episódios notáveis da MPB "a partir do olhar de alguém que não apenas os testemunhou, mas os viveu intensamente, como protagonista".

Juarez Fonseca conta que, em dezembro de 2024, enquanto a A Cor do Som se apresentava no Festival Choro Jazz, em Jericoacoara, pensou: "bem que eles mereciam um livro". O desejo virou papel. E Eduardo Bueno convida o leitor a calçar os blue suede shoes, "confortáveis feito um sapato velho", e sair da linha por essa yellow brick road. A brincadeira tem fundamento: "Sapato Velho", de Mu com Cláudio Nucci e Paulinho Tapajós, é um dos maiores sucessos de sua autoria.