A Rita mais humana
Monológo 'Rita Lee: A Balada da Louca' é inspirada no diário da cantora, que tornou-se sua segunda autobiografia
Depois de três meses em cartaz em São Paulo, com ingressos esgotados antes mesmo da estreia, "Rita Lee: Balada da Louca" chega ao Rio com um novo lote de ingressos liberado. Com Lilia Cabral no papel da roqueira, a peça fica em cena no Teatro PRIO até 15 de novembro.
Ao ser diagnosticada com câncer de pulmão, em 2021, Rita decidiu escrever um diário. Do caderno nasceu "Rita Lee: Outra autobiografia", lançado em 2023, pouco depois da morte da cantora. A obra é a base do monólogo, que repassa os últimos anos da grande ícone da MPB em 70 minutos, com as marcas que sempre a definiram: a franqueza crua — ora chocante, ora irônica, ora sutil e amorosa.
Fã da cantora desde a adolescência, Lilia conta que encontrou Rita uma única vez, em 2012, num especial do Altas Horas. "A gente se cumprimentou, se abraçou e ela se ajoelhou pertinho de mim enquanto dizia que era minha fã, o que me emocionou", recorda a atriz. Uma década depois, o convite para encarná-la a pegou de surpresa. "Sempre fui fã da Rita, que, para mim, é uma referência em tudo. Quando recebi esse convite, cheguei a perder um pouco o rumo — nunca havia pensado nessa possibilidade. Curiosamente, quando comentei com algumas pessoas, elas se surpreendiam e diziam que era uma junção de mundos maravilhosa." No palco, sustenta Lilia, "o que me apoiou na construção da personagem foram as palavras da Rita, a forma como ela transmite leveza e revolta".
O texto é de Guilherme Samora, jornalista e editor dos livros de Rita — o "Colecionador de mim", como a amiga o apresentava na autobiografia. A relação começou como a de qualquer fã, com "Maria Mole" tocando no rádio, e virou quase parentesco: Rita tratava-o como filho.
Em 2012, recém-aposentada dos palcos, ela desarmou a objeção do amigo — que resistia a misturar o lado de fã com o profissional — e o chamou para escrever o primeiro volume; no texto, ele aparece como um fantasma encarregado de lembrar Rita dos momentos da carreira que ela mesma tinha esquecido. Foi também na beira do sono, em setembro de 2025, que Samora acreditou ouvir a voz da amiga sussurrar o recado que originou a peça: "Gui, precisamos transformar a segunda autobiografia em teatro". No dia seguinte, Roberto de Carvalho, marido da cantora, deu a autorização.
"A Rita apresentada neste monólogo assume a forma mais humana possível. Ela fala de finitude, de amor e da doença com uma coragem ímpar, sem dramas e, até mesmo, com humor. Só ela conseguiria algo assim", define Samora.
A direção é de Beatriz Barros, responsável pela aclamada montagem de "O Avesso da Pele", do coletivo Ocutá. "É muito especial que seja a Rita, e que ela esteja sendo representada em um espaço de intimidade, onde existe uma reflexão filosófica sobre temas tão importantes como a morte, o envelhecimento e a relação com a espiritualidade", afirma. Com direção musical de Dani Nega, Lilia canta; a trilha reserva ainda a voz da própria Rita num acústico de "Balada do Louco", canção que ela compôs com Arnaldo Baptista em 1972, ainda nos Mutantes.
"Como é difícil explicar a complexidade de fazer um espetáculo sobre Rita Lee. E como é fácil entender por que é possível realizá-lo: amor — por tudo o que Rita deixou como legado!", resume Edinho Rodrigues, diretor de produção. Para Vanessa Campanari, também diretora de produção, "esse projeto nos aproxima ainda mais da Rita. É como se pudéssemos sentir sua energia, sentir-nos mais íntimos dela".
Samora costuma chamar Rita de "a maior compositora do país". O diário que a própria cantora via como seu "último ato" chegou às livrarias sem a autora: Rita Lee morreu em maio de 2023, aos 75 anos.
SERVIÇO
RITA LEE: A BALADA DA LOUCA
Teatro PRIO (Jockey Club - Av. Bartolomeu Mitre, 1110B, Leblon)
Até 15/11, sextas e sábados (20h) e domingos (18h)
Ingressos: R$ 150 e R$ 75 (meia)