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Uma xícara de chá e cuidado

Canção da pernambucana Isadora Melo torna-se receita contra a intolerância em single gravado em belo dueto por Zélia Duncan e Mônica Salmaso

Por Affonso Nunes

Mônica Salmaso e Zélia Duncan nos intervalos da gravação da faixa

Disponível desde segunda-feira (19) nos aplicativos de música, "Proposta para um Estado Crítico" chega ao público, às vésperas de uma nova eleição, como uma receita de afeto e solidariedade para tempos de intolerância. Assinada pela pernambucana Isadora Melo e cantada em dupla por Zélia Duncan e Mônica Salmaso, a canção recomenda o cuidaddo mútuo em versos como "eu cuido de você / e você cuida de mim / e dou-lhe de cortesia / chá de flores de jasmim".

A ideia da gravação partiu de Salmaso, que descobriu o trabalho de Isadora Melo e se encantou com suas composições — "Proposta para um Estado Crítico" ficou na memória. Tempos depois, ao reencontrar a música num vídeo nas redes sociais, veio a vontade de gravá-la ao lado de Duncan, com quem divide uma relação de afeto e compromisso com a palavra cantada. "Além da felicidade imensa de juntar nossas vozes, acho que é um encontro em nome desse chamado. A Zélia tem um comprometimento com o texto, com a palavra dita, uma relação de verdade com aquilo que canta", conta Mônica.

"A Mônica diz que quer cuidar de mim, mas, na verdade, a gente quer que o país cuide de si, que cuidemos uns dos outros. Esse é o chamado, explica Zélia."

Em tempos de acirramento político por toda parte, a canção prefere a cortesia simbolizada no chá de flor de jasmim, "um remédio para cada maladia".

No estúdio, a produção musical é de Teco Cardoso, também responsável pelas flautas; Maria Beraldo assina clarinete e clarone; Salmaso acrescenta o shruti e sons feitos com corda de violão e pincel. Gravação de Tó Brandileone, mixagem e masterização de Ricardo Mosca, produção fonográfica Duncan Discos.

O clipe, no ar no YouTube das duas artistas, tem a grife do premiado diretor e fotógrafo Walter Carvalho, responsável pela fotografia de filmes como "Central do Brasil", "Lavoura Arcaica", "Carandiru", "Abril Despedaçado" e "Terra Estarngeira", entre outros. O projeto reúne imagens dele com registros das artistas em estúdio, feitos por Nathaly Assis, também autora da capa.

Isadora Melo nasceu no Recife em 1989, filha de atriz e cantor. Passou pelo grupo de choro Arabiando e pela Orquestra Contemporânea de Olinda, excursionou com o Cordel do Fogo Encantado em 2018 e, do desejo de compor despertado pela turné, nasceu "Anagrama" (2022), disco que lhe rendeu indicação ao Prêmio da Música Brasileira de 2023 como intérprete regional.

A paulistana Mônica Salmaso estreou profissionalmente em 1989, no "O Concílio do Amor" de Gabriel Villela, venceu o Prêmio Visa MPB de canto em 1999 e, em 2015, o Prêmio da Música Brasileira de melhor cantora de MPB, com "Sedutora" premiada como melhor canção.

Nascida em Niterói e criada em Brasília, Zélia começou a se apresentar profissionalmente aos 17 anos. Mas foi com sua versão em português para "Catedral", de Tanita Tikaram, lançada em 1994, que a cantora tornou-se nacionalmente conhecida. Desde então, acumulou discos de ouro e platina, duas indicações ao Grammy Latino e o título de melhor cantora no Prêmio da Música Brasileira.