☰
✕

Estudando os 90

Último dos tropicalistas, Tom Zé comemora os 90 anos no Circo Voador com repertório de todos as suas fases e lançamento de disco ao vivo gravado em 1996

Por

Affonso Nunes

Ele é considerado o último dos tropicalistas. Não que Gil ou Caetano deixassem de ser, mas Tom Zé é quem mais se mantém como tal. E não é porque aferrou-se a uma tradição. Pelo contrário: é o mais ousado, inovador e inquieto dos integrantes deste movimento que revolucionou a MPB. A dois dias de completar 90 anos, o baiano de Irará sobe nesta sexta (9) o palco do Circo Voador com show de celebração de uma das nossas carreiras musicais mais instigantes.

"Continuo fazendo trabalhos e subindo ao palco. Um dia morro lá. A morte não vai ter muita escolha, tem que pegar a gente onde estamos mais", disse Tom Zé em entrevista recente à Veja SP. "Noventa anos é uma idade que a pessoa já gastou e desgastou, sabiamente e analfabeticamente. A gente trata a vida assim, jogando fora e também aproveitando para alguma coisa", filosofou.

O Circo já anunciou que a apresentação, com lotação esgotada, terá data extra em 13 de novembro. Além de relembrar sua obra - dos clássicos que marcaram a Tropicália aos trabalhos mais recentes - o cantor e compositor lança nas plataformas e lojas "Relicário - Tom Zé - Ao vivo no Sesc 1996", pelo Selo Sesc.

O disco é um registro que ficou 30 anos na gaveta — 16 faixas captadas em uma unidade do Sesc em São Paulo, justamente no intervalo em que a carreira do baiano era redescoberta pelo mundo. Nele convivem momentos diversos da trajetória e duas versões de peso: "Taí (Pra Você Gostar de Mim)" e "Trem das Onze". O single "Ogodô, Ano 2000" deu pistas do que vem por aí. O lançamento chega em plena temporada de reconhecimento — a Caixa Cultural São Paulo inaugurou nesta semana a exposição "Tom Zé - 90 anos do Inquieto Jardineiro de Sons", mostra interativa que percorre da infância na Bahia ao Festival de Música Popular Brasileira de 1968, onde "São, São Paulo" fincou a bandeira de um compositor que nunca quis o óbvio. "Ah, eu fiquei criança. Eu fiquei criança de alegria, Deus seja louvado. E abençoado seja quem tomou todo esse tempo de trabalho, com cada detalhe e cada coisa funcionando", disse na inauguração da exposição.

Nascido Antônio José Santana Martins, em 11 de outubro de 1936, Tom Zé construiu uma carreira avessa a qualquer ideia de repertório acomodado. Estudou música na Universidade Federal da Bahia, migrou para São Paulo, entrou na Tropicália e talvez tenha sido o tropicalista que mais levou o experimentalismo a sério: enquanto o movimento celebrava a colagem, ele partia para a desmontagem — ruídos, instrumentos inventados, palavras que desmontam o refrão no meio da frase. Quando a indústria o arquivou nos anos 70 e 80, foi David Byrne, fascinado por "Estudando o Samba" (1976), quem reeditou a obra nos Estados Unidos e devolveu o nome às prateleiras do planeta. Fizeram dele, depois, o "último tropicalista", num documentário de 2019 do italiano Pietro Scaramuzzo — e ainda há material de 2026 por vir. Aos 90, sua obra continua em aberto.

No Circo Voador, a comemoração ganha um palco que combina com o homenageado. É lá que Tom Zé vem, anos a fio, transformando cada passagem em acontecimento. O show-festa reserva o que só uma cabeça engenhosa e incansavelmente curiosa pode reservar: desvios de última hora, talvez alguma coisa que ninguém pediu e, mesmo assim, todo mundo vai querer.

Fazendo uso do humor como ferramenta crítica, Tom Zé é comumente tratado como excêntrico, mas o que temos é um artista coerente com sua arte.

SERVIÇO

TOM ZÉ - 90 ANOS

Circo Voador (Rua dos Arcos, s/nº, Lapa)

9/10*, a partir das 20h (abertura dos portões com setlist do DJ Marcello MBgroove) | Ingressos esgotados

*Data extra confirmada para 13/11