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O disco que faltava

Depois de três décadas de parcerias esporádicas, Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes lançam o primeiro álbum em dupla, com repertório novo composto quase inteiramente do zero

Por

Affonso Nunes

Sem terem planejado nada, Adriana Calcanhotto e Arnaldo Antunes compuseram juntos o repertório inteiro de "Vice-Versa", primeiro álbum da dupla, com dez inéditas e uma regravação. A turnê nacional desta dupla unida pela palavra tem datas confirmadas para 2027.

A sintonia entre Adriana, de 60 anos, e Arnaldo Antunes, de 66, sempre fez parecer que os dois fossem parceiros musicais de longa data, daqueles que já construíram uma obra consistente juntos. Não eram. Por aqueles mistérios da música, era difícil acreditar que nunca tinham gravado um disco — e a única canção conjunta dos dois era "Pra Lá", de 2006, indicada ao Latin Grammy de Melhor Canção em Língua Portuguesa.

Vinte anos depois, veio a reparação. "Vice-Versa", primeiro álbum da dupla, com dez faixas autorais compostas a quatro mãos e uma regravação, chegou de surpresa às plataformas de streaming no último dia 22, pela Universal Music Brasil. E, diferentemente daquela primeira parceria, que não nasceu de forma planejada, o disco novo foi carinhosamente planejado — começando pela história "culposa" de "Pra Lá", como os dois contam divertidos: Adriana compôs uma melodia, passou para Dadi, e nunca mandou nada para Arnaldo. Tempos depois, fazendo seu show infantil "Partimpim", em Lisboa, recebeu no camarim a visita inesperada de Arnaldo, com um anúncio mais inesperado ainda: ele queria mostrar a música que eles haviam feito em parceria. Ninguém sabe explicar como, mas a melodia que Adriana tinha dado a Dadi de alguma maneira tinha chegado até ele.

O caminho até "Vice-Versa" passou pelos encontros em shows, festivais, livros e conferências um do outro, revelando a partilha de uma linguagem, uma estética e uma ética semelhantes. Em 2024, os dois dividiram o palco no Coala Festival, em São Paulo, e dali saiu a vontade de prolongar aquele encontro. "Ficamos com vontade de ir para a estrada juntos, que é uma coisa que ainda não tínhamos feito. Aí pensamos: vamos fazer uma turnê, mas queremos compor para fazer uma turnê", conta Adriana.

As trocas à distância deram lugar a encontros presenciais na casa de Arnaldo, em São Paulo, e na de Adriana, no Rio — e, no estúdio, a simbiose se confirmou: "Gravamos o disco todo em uma semana. As vozes, gravamos em um dia só, de manhã até de noite: uma depois da outra, cantando juntos. Cada um na sua salinha, mas dava para se ver pela janela. Foi incrível, nunca gravei tantas vozes no mesmo dia", lembra Arnaldo.

O nome do disco já diz quase tudo: duas palavras sonoras, quase rimadas, sintéticas, com sentido oposto e complementar. Vice-versa, segundo o dicionário, são inversos mútuos, numa contradição apenas aparente. A tradução aparece na única canção não cantada em uníssono, "Agora Juntos": "lento e rápido", "cais e caos", "lixas e veludos", "graves e agudos", "claro e escuro". Como pensar em um sem o outro? A mesma lógica rege a identidade visual criada por Daniela Thomas, responsável pela direção de arte dos clipes de cada faixa: preto e branco nos figurinos, jogos de espelhos, destaque igual para os dois. "Um é o espelho do outro. E tem essa coisa do feminino e do masculino, mas também não tem muita diferença. As personas deles não têm essa diferença de gênero muito marcadas", descreve ela.

Atravessando o rock, o reggae, a MPB e o samba, o álbum reúne as melodias delicadas e intimistas de Adriana às letras poéticas de forte influência concretista de Arnaldo. No repertório, parcerias dos dois com Pupillo, da Nação Zumbi, em "Se For Pra Ser Agora" e "Contemplando a Folia", e com Marisa Monte, em "Na Minha Carne Viva", além da versão de "Sorriso Livro", da Timbalada. Reunidas, as canções manifestam um ethos de insubmissão: a lixa e o veludo se raspando, em uníssono, criam uma sonoridade ao mesmo tempo tranquila e inquieta. "Todo mundo tá falando o que é melhor pra mim/ (...) / palpitando e dando ideia do que vai rolar/ (...) só eu sei o que eu tô pensando/ quer estar no meu lugar/ vem entrar aqui na minha carne viva/ pra saber o que é melhor pra minha vida". A afirmação de autonomia se repete no apelo à introspecção de "Também Capaz", na queixa contra a violência de "As Bancas de Jornais", no desejo de transbordamento de "Contemplando a Folia" e nas reivindicações de "Não Me Dão".

Cantando juntos, Adriana e Arnaldo dão voz a um sujeito que atravessa o disco inteiro e que habita igualmente os arranjos equilibrados. Um sujeito que, mesmo insatisfeito com o estado geral das coisas, não deixa de amar, de se encantar e de provocar encanto.

Nas enumerações e repetições de "Na Minha Carne Viva", "Também Capaz", "As Bancas de Jornais", "Não Me Dão" e "Não Me Deu", expressa-se o choque do excesso: de informações, de opiniões, de violência e de coisas. O "você" de "Também Capaz" é chamado a "olhar pra dentro/ por um momento só/ estar consigo a sós/ fechar os olhos/ e respirar/ experimentar a paz" — uma paz que, longe de isolar, vem da consciência de ser um sujeito ativo e autônomo. Um sujeito capaz. Desse "lá" que vem de "a montanha insiste em ficar lá, parada", de 2006, até o disco que chega agora, a estrela que guia os dois traz a força transformadora da canção - pela alegria, revolta, consciência e simpatia. Canções sofisticadamente simples, tornando pop a elegância, a precisão e a generosidade.