A música não morrerá nunca!
Hoje trataremos de "Toró" (selo Risco), álbum e filme de Vitor Araújo e da Metropole Orkest, trabalho que consagra Araújo e integra a música instrumental brasileira ao circuito mundial. O audiovisual, gravado ao vivo em Amsterdã, marca a sua estreia como solista de uma grande orquestra sinfônica internacional.
Pernambucano do Recife, Araújo eleva e revela a potência da criação nordestina, feita de mangue e caranguejo, folguedos e tradições milenares, ritmos múltiplos e plenos de brasilidade. É a cultura nordestina libertária, mais uma vez, rompendo fronteiras.
Como solista e compositor, Araújo passa a também integrar o pequeno grupo de artistas brasileiros que já colaboraram com a Metropole Orkest, Edu Lobo e Ivan Lins. Novamente, Nordeste e Europa se juntam para criar a sempre buscada "música universal". O mundo aplaude!
Os músicos que integram a banda de Vitor Araújo, valendo-se de elementos eletrônicos e experimentações, agregam vigor à música europeia, trazendo à tona um delírio tão popular quanto o charme da junção, superando as expectativas do ouvinte.
Divididos em "toques", convido-os a ouvir alguns, seguindo os comentários que transcrevi do encarte - eles ilustrarão a audição do álbum quer pode ser ouvido na íntegra em https://l1nq.com/jri7n5p.
Toque nº1 - "A abertura do concerto se dá através de uma das 'macumbas orquestrais' do repertório, peça maximalista com forte inspiração nos trabalhos instrumentais de Villa-Lobos, Moacir Santos e Antônio Carlos Jobim, onde melodias e harmonias com característica de cantiga brasileira vão se avolumando numa espiral crescente entre orquestra, piano e percussões".
Toque nº2 - "Talvez a mais experimental das músicas de 'Toró', onde um rádio de pilha sintonizado ao vivo é o instrumento solista à frente da orquestra sinfônica. A faixa, construída com técnica minimalista, traz uma homenagem às peças para rádio do vanguardista John Cage e também uma memória da já clássica performance ao vivo do Radiohead tocando 'National Anthem'."
Toque nº 3 - "Faixa inspirada nas agremiações de afoxé que saem às ruas no carnaval de Recife e Olinda. Um confronto entre os frenéticos elementos cíclicos e percussivos em 140bpm e a melancolia espacial da voz e das cordas da orquestra, com ambos elementos pairando etéreos sobre a acelerada sessão rítmica".
Juntos, Vitor Araújo e Metropole Orkest constroem e articulam a pulsação rítmica nordestina que, somada à erudição europeia, realçam a soma das potências.
Enfim, quando os humanos acabarem de destruir a Terra, restará a música que nos redimirá.
Ficha técnica
Regência Metropole Orkest: Jacomo Bairos - quatro primeiros violinos, quatro segundos violinos, três violas, dois cellos e um contrabaixo. Banda de Vitor Araújo — Mauro Refosco: percussão; Aduni: ogã; Amendoim: percussão; Charles Tixier: bateria, synth, MPC e samples; Felipe Pacheco Ventura: guitarra.
*Vocalista do MPB4 e escritor