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Asas cortadas pela ditadura

Anistiada em março, 52 anos após ter disco recolhido, a Ave Sangria faz sua primeira apresentação no Circo Voador em noite com outras duas bandas nordestinas

Por Affonso Nunes

Perseguida pela ditadura, a Ave Sangria se tornou a primeira banda a ser indenizada pela União

O Circo Voador recebe neste sábado (26) o Ave Sangria, grupo pernambucano fundado em 1974, que sobe pela primeira vez ao palco da lona. Na mesma noite, tocam os paraibanos Papangu, que apresentam em primeira mão o novo álbum "Celestial", e Zepelim e o Sopro do Cão, que abre os trabalhos.

Pioneiro na fusão do rock com ritmos regionais — a imprensa da época os chamava de "os Rolling Stones do Nordeste" —, o grupo nasceu da dupla de compositores Marco Polo e Almir de Oliveira, na Vila dos Comerciários, região pobre do Recife. A formação que gravou o disco de estreia, em 1974, tinha Marco Polo nos vocais, Ivson Wanderley (guitarra solo e violão), Paulo Rafael (guitarra base), Almir (baixo), Israel Semente (bateria) e Agrício Noya (percussão). A faixa "Seu Valdir" foi vista pelos órgãos repressivos como "incentivo à homossexualidade", que bastou para o álbum ser recolhido. A gravadora rompeu o contrato, a carreira parou e o disco sobreviveu como relíquia de colecionador, cultuada por uma legião discreta de aficionados da lisergia nacional.

A reparação veio em março deste ano: a Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos reconheceu formalmente a perseguição política sofrida por Marco Polo, Almir e Agrício — morto antes da decisão, com o benefício destinado à esposa. O Ave Sangria tornou-se a primeira banda anistiada no Brasil.

Reunidos desde 2014, quando relançaram ao vivo o show histórico de 1974, Marco Polo e Almir dividem hoje o palco com Júnior do Jarro (bateria), Gilú Amaral (percussão) e Juliano Holanda (baixo).

Na estreia carioca, o grupo passeia pelo álbum homônimo de 1974 e por "Vendavais", de 2019, gravado ainda com Paulo Rafael, que se tornaria guiatrrsita da banda de Alceu Valença e morreu em 2021. Nesta estreia na Lapa, o grupo passeia pelo álbum homônimo de 1974 e por "Vendavais", de 2019.

Já o Papangu chega em ascensão. Captado em Berlim após a primeira turnê internacional, "Celestial" entrelaça rock progressivo, MPB, metal extremo, zeuhl, ciranda e forró numa tapeçaria inspirada em rituais de proteção do corpo e do espírito — e numa recusa à adoção desenfreada da "inteligência artificial". Formada por Marco Mayer (baixo), Hector Ruslan (guitarra), Rodolfo Salgueiro (teclados), George Alexandria (bateria) e Pedro Francisco, coringa entre flauta, saxofone e percussão, a banda de João Pessoa usa equipamentos vintage dos anos 60, 70 e 80 sem cair na nostalgia.

Completa o time nordestino a Zepelim e o Sopro do Cão, formada em 2006, em Campina Grande, por Babu, Dede e Frango. O trio cruza rock nacional dos anos 90, hardcore e rap sobre o sotaque e as vivências do interior paraibano.

SERVIÇO

PAPANGU, AVE SANGRIA e ZEPELIM E O SOPRO DO CÃO

Circo Voador (Rua dos Arcos, s/nº, Lapa)

26/9, a parir das 20h (abertura dos portões)

Ingressos: R$ 180 e R$ 90 (meia)