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Amigo é coisa pra se guardar... num disco lindo

Aos 80 anos, João Bosco chama a nata da MPB e novos talentos para redesenhar seus clássicos

Por Affonso Nunes

Chico Buarque, Caetano Veloso, Zeca Pagodinho, Mart'nália, Ivete Sangalo, Jota Pê, Martinho da Vila, Hamilton de Holanda, Taigo Iorc, Jaques Morelenbaum, Bruna Black e Vanessa Moreno são apenas alguns dos convidados de João Bosco para gravar o álbum

João Bosco abre e fecha o disco com a mesma canção. "Odilê Odilá", em dueto com Martinho da Vila. É a moldura perfeita para "Amigos Novos e Antigos" (Som Livre), álbum com 17 faixas que o cantor e compositor lança completo nas plataformas digitais nesta sexta-feira (25). No intervalo entre as duas versões, o músico recebe Chico Buarque, Caetano Veloso, Ivete Sangalo, Zeca Pagodinho, Tiago Iorc e mais uma dezena de convidados, antigos companheiros de estrada e nomes de gerações que cresceram ouvindo suas canções. É a primeira vez, em mais de cinco décadas de carreira, que o artista grava um álbum concebido a partir de encontros com tantos convidados. Por isso o título deste texto parafraseia em parte os versos de "Canção da América", de Milton Nascimento e Fernando Brant - uma dupla de autores tão potente quanto João Bosco e Aldir Blanc.

A primeira parte do projeto saiu em julho, com seis faixas adiantadas ao público. Agora chega o disco inteiro. "Chegar aos 80 cercado de pessoas que fizeram parte da minha história e de artistas que continuam levando essa música pra frente é um presente. Este disco nasceu da vontade de agradecer. Cada canção é uma conversa, um abraço, um reencontro", resume João Bosco, que completou 80 anos em 13 de julho.

O título vem de uma composição sua com Aldir Blanc e sintetiza o espírito do projeto: menos uma coleção de duetos do que um mapa de encontros entre gerações, entre memória e presente, entre compositores e intérpretes. O percurso atravessa momentos marcantes de uma obra que todo o Brasil conhece e tanto admira.

Em "Incompatibilidade de Gênios", clássico com Aldir Blanc, João Bosco divide a cena com Chico Buarque num arranjo que conta com o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba. Em "Sinhá", parceria de Bosco com o próprio Chico, é Caetano Veloso quem marca presença. "Nação" recebe o bandolim de dez cordas do amigo Hamilton de Holanda; Cesar Camargo Mariano assina os teclados de "Casa de Marimbondo"; na faixa-título, Bruna Black e Mestrinho representam a nova geração; e "Jade" aproxima Jota.Pê da clarinetista israelense-americana Anat Cohen.

Encontro afetivo é o que não falta ao trabalho. Zeca Pagodinho empresta sua malícia a "Siri Recheado e o Cacete", parceria com Aldir Blanc lançada originalmente em 1980. Mart'nália põe ginga na clássica "Kid Cavaquinho"; Tiago Iorc canta "Perfeição", que Bosco fez com o filho Francisco Bosco; Vanessa Moreno e Jaques Morelenbaum se cruzam em "Memória da Pele"; e Pedro Mariano e Rafa Mariano, pai e filha, assumem "O Bêbado e a Equilibrista" - o obra-prima da dupla Bisco e Blan, imortalizada na vez de Elis Regina, mãe de Pedro e avó de Rafa. A faixa foi gravada em São Paulo, com produção do tecladista Marcelo Maita e acompanhamento da banda de Pedro Mariano. Levantamento do Ecad publicado em julho, por ocasião do aniversário de 80 anos do compositor, aponta "O Bêbado e a Equilibrista" como a música de sua autoria mais tocada e regravada no país.

Há ainda espaço para o encontro consigo mesmo. "Boca de Sapo", composição de 1979, aparece sem convidado, reafirmando a força singular de sua interpretação tanto na voz quanto na batida de seu violão em que cana toda uma escola de samba. Silva canta "Papel Machê" e Ivete Sangalo assume "Corsário". Ao longo do disco, a presença de Aldir, parceiro de mais de uma centena de canções, ressurge com força, beleza e novidades.

O resultado deve muito aos arranjos e à produção musical do trombonista Rafael Rocha, um dos expoentes da nova geração de músicos brasileiros, que rdenehou todas as canções do repertório, preservando sua identidade, mas abrindo novas possibilidades de interpretação. O projeto visual é do fotógrafo Victor Corrêa e de João Ferro, em parceria com Julia Bosco, filha do artista, que assina também como produtora executiva.

"Essas músicas nunca foram minhas apenas. Desde que nasceram, passaram a pertencer às pessoas. Agora voltam diferentes, carregando as histórias de quem as cantou, ouviu, gravou e viveu com elas. Acho bonito ver uma canção continuar mudando sem perder sua essência", destaca João Bosco.

Toda essa lindeza de repertório poderá ser conferida no próximo fim de semana no show de lançamento do álbum, no dia 2 de outubro, no Qualistage, com as participações especiais de Hamilton de Holanda e Tiago Iorc.