Reedição revela, a cada take, a evolução de um edifício sonoro
Disponibilizada nesta semana, segunda versão da canção-chave de 'Rubber Soul' integra a Edição Especial do álbum, que reúne 24 gravações de sessão — 20 takes e três demos nunca ouvidos — e chega em outubro com nova mixagem de Giles Martin e Sam Okell
Em 2 de outubro, os Beatles abrem os arquivos de seu estúdio mais decisivo. Chega às lojas a Edição Especial expandida de "Rubber Soul", o disco de 1965 em que a maior banda pop do planeta deixou de ser apenas isso e se tornou, diante dos microfones, outra coisa: artistas em pleno aprendizado de liberdade. A coleção reúne 24 gravações das primeiras sessões — 20 takes inéditos e três demos caseiras nunca ouvidos —, além da nova mixagem estéreo assinada por Sam Okell e Giles Martin - o filho de George Martin, o fiel escudeiro e dos Beatles em estúdi - da mixagem mono original, da versão lançada pela Capitol nos EUA e do single da época, "Day Tripper"/"We Can Work It Out".
E, antes da chegada do conjunto, a UMG e a Apple Corps Ltd. vêm adiantando faixas de peso: depois de "Michelle (Take 1)", no anúncio da coleção, em 29 de julho, e de "Day Tripper (Songwriting Work Tape)", foi a vez de "Norwegian Wood (This Bird Has Flown) (Second Version - Take 2)" — talvez a mais reveladora de todas.
Para quem cresceu ouvindo os quatro de Liverpool — e há milhões de nós, espalhados por gerações sucessivas, das vitrolas das décadas de 1960 e 1970 às playlists das plataformas digitais —, ouvir um take alternativo de "Norwegian Wood" é se deparar com a alma da banda no instante exato em que ela começou a se arriscar musicalmente, hoje o maior legado do grupo.
A primeira versão da canção, então batizada apenas de "This Bird Has Flown", foi registrada no primeiro dia de sessões de "Rubber Soul", com George Harrison experimentando sua recente descoberta, a cítara. A banda não ficou satisfeita com o resultado. Nove dias depois, voltou ao estúdio e gravou outras três performances. No take dois agora revelado, a faixa um carrega o violão de John Lennon, o baixo de Paul McCartney, a bateria de Ringo Starr e George pontuando notas de bordão na cítara; nas faixas dois e três, ele acrescenta mais camadas do instrumento, e os vocais de John e Paul entram na terceira. E há um detalhe que muda tudo para quem conhece a versão final de cor: em vez de abrir com a melodia instrumental do verso, o arranjo começa com a cítara em dois canais desenhando a melodia da ponte — como se a cortina subisse antes da hora, antecipando o clímax.
O uso do instrumento é fruto de uma sucessão de acasos. George chegara ao som da cítara durante as filmagens de "Help!" e, numa conversa com David Crosby, dos Byrds, em Los Angeles, ouviu falar pela primeira vez da música de Ravi Shankar — o que o levou a explorar as gravações do indiano. "Aquele tipo de música me soava muito familiar", lembrou George. "Naquela época, eu tinha comprado uma cítara barata em uma loja chamada Indiacraft, em Londres. Quando estávamos trabalhando em 'Norwegian Wood', faltava algo à canção, e tudo aconteceu de forma bastante espontânea. Peguei a cítara e, de algum jeito, encontrei as notas. Colocamos a música para tocar, pareceu bem encaixado, e foi isso", disse tempos depois.
E o prazer maior desta edição especial é a escuta comparativa. Cada canção de "Rubber Soul" emerge ao ouvinte em múltiplas versões: violões mais crus, vozes ainda buscando seu lugar, variados arranjos de uma obra em aberto, com muitas deciões por tomar. Ouvir os takes em sequência é uma maneira de acompanhar o pensamento estético-musical da banda que revolucionou o século 20 ganhando forma. É o prazer de ver um clássico sendo gestado. O take dois de "Norwegian Wood" aparece nas versões Super Deluxe e Deluxe do conjunto, que já pode ser reservado em pré-venda na UMusic Store.
Lançado originalmente em 3 de dezembro de 1965, "Rubber Soul" fechou um ano notável em que John, Paul, George e Ringo alcançaram o auge artístico e comercial — e, ao mesmo tempo, revelou uma banda disposta a ir além das convenções do pop, com uma abordagem mais ousada de composição e de gravação. O álbum é a espinha dorsal que liga a febre da beatlemania às experimentações que se seguiriam em "Revolver" e "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band".
Nada disso, porém, substitui o prazer de voltar a 1965 e ouvir uma banda descobrindo, take a take, que podia ser qualquer coisa que quisesse até mesmo tornar-se o maior grupo musical de todos os tempos.