O legado de Belchior segue

Em seu álbum, 'Meu Nome é Cem - Parte 1', a cantora Vannick Belchior atualiza a obra de seu pai

Por Affonso Nunes

A cantora cearense Vannick Belchior abraça a obra o pai com olhar sobre o presente

Nos últimos anos de vida, Belchior se afastou de tudo o que construiu. Deixou para trás uma carreira de sucesso, passou por cidades do Sul e do Uruguai e recusou convites para shows e novos discos. Parecia querer romper com a própria obra... Não conseguiu. Suas canções continuaram a circular, ganharam intérpretes, voltaram aos palcos e se mantiveram na memória de quem cresceu com elas. Família, fãs e músicos cuidaram desse repertório enquanto seu criuador escolhia desaparecer.

Agora, às vésperas dos 80 anos de seu nascimento, Vannick Belchior assume uma parte dessa herança sem se limitar ao mero tributo. Em "Meu Nome é Cem - Parte 1"*, que chega às plataformas em 4 de setembro, ela aproxima do rapper Don L e do compositor Renato Teixeira e procura fazer o legado do pai conversar com o presente.

O álbum reúne seis faixas. Don L participa de "Meu Cordial Brasileiro", enquanto Renato Teixeira divide com Vannick uma nova leitura de "Tudo Outra Vez". Na faixa-título, já divulgada, ela trabalha com o produtor Rick Ferreira.

Renato Teixeira foi amigo e parceiro de palco de Belchior; Don L, também cearense, traz para o disco uma voz marcada pela crítica social e pela observação urbana taõ pesentes na obra do bardo.

"Meu Cordial Brasileiro" parte da denúncia dos problemas sociais cíclicos, das aparências e das relações de poder. "Quando penso em denúncia e genialidade atual, penso no Don L", afirma Vannick. "Ele é da minha cidade e tem um posicionamento político e musical fortíssimo." A cantora aproxima a crítica ao "poder amargoso sobre o cidadão comum" de uma perspectiva contemporânea.

Em "Tudo Outra Vez", o caminho é outro. A presença de Renato Teixeira vem da proximidade humana e artística dele com Belchior. "A música conversa com a simplicidade humana e com uma poesia rebuscada, algo que se conecta muito com a obra do meu pai", diz Vannick. Para ela, as histórias que Teixeira contou sobre essa amizade ajudam a "eternizar ainda mais essa canção".

O disco expande o universo da faixa-título "Meu Nome É Cem". A canção usa a figura de um artista circense e a metáfora de um cidadão invisibilizado para falar da precariedade da arte no Brasil. O tema encontra eco na obra de Belchior, compositor que tratou de deslocamento, trabalho, desejo e desencanto sem se curvar às reverências.

Vannick já se aproximara desse repertório em projetos como "Das Coisas que Aprendi nos Discos" e "Concerto à Palo Seco". No novo trabalho, assina a curadoria de repertório e tenta sustentar uma voz própria num território inevitavelmente ocupado pela memória do pai.