Cinco décadas de sambas memoráveis? Chama o Jorge Aragão
Cantor e compositor do primeiro time do samba leva ao palco do Qualistage neste sábado (29) os maiores sucessos de uma obra marcante desde os tempos do Fundo de Quintal
Affonso Nunes
Dono de uma das trajetórias mais celebradas do mundo do samba e da canção popular, Jorge Aragão sobe ao palco do Qualistage neste sábado (29), às 21h30. Aos 77 anos, o compositor, músico e intérprete celebra 50 anos de sucessos, parte deles nascidos nas rodas do Cacique de Ramos, por sua passagem pelo Fundo de Quintal e numa carreira solo vitoriosa. Jorge é autor de canções que embalam os brasileiros faz tempo.
A história de Jorge Aragão talvez comece antes do primeiro disco, antes mesmo de "Malandro" abrir, em 1976, o álbum "Lição de Vida", de Elza Soares, e se tornar sucesso nacional. Vem de um som que chegava de longe à sua casa em Padre Miguel. O batuque da Mocidade Independente, trazido pelo vento, chegava aos ouvidos do garoto cuja mãe não permitia que frequentasse escola de samba. Jorge aprendeu violão e tocou em bailes de bairro. O encontro definitivo com o samba só se daria depois, quando ele encontrasse o Cacique de Ramos onde encontrou uma geração que alteraria o som e a escala do samba carioca: Almir Guineto, Arlindo Cruz, Sombrinha, Bira Presidente, Sereno, Ubirany, Neoci e outros. Dali, e do Fundo de Quintal, veio a linguagem que levou o pagode para o centro da música popular — com banjo de braço de cavaquinho, tantã e repique de mão. Aragão participou do primeiro disco do grupo, em 1980, e consolidou-se como compositor e letrista antes de seguir em carreira solo no ano seguinte.
Mas ante de tudo isso houve "Malandro". A parceria com Jotabê nasceu em Santa Cruz, nos anos em que ambos serviam à Aeronáutica e ainda escreviam músicas de outros gêneros. A morte de Zeca, contada logo no início da letra, foi notícia dada por Inácio, amigo da dupla. Aquele samba ficou guardado por cerca de uma década. Um dia, Aragão tocava violão na calçada de casa quando Alcir Portela, então jogador do Vasco, pediu ao vizinho que lhe mostrasse algumas composições. "Malandro" chamou atenção. Por intermédio de Alcir, a música chegou a Neoci, que levou o jovem autor à gravadora Tapecar. Os executivos a encaminharam a Elza Soares que, sem titubear, a escolheu para abrir seu novo álbum. A gravação deu dimensão nacional a um compositor que ainda vivia a precariedade de quem tocava na noite.
A cena se repetiria, em escalas diferentes, ao longo da obra. Beth Carvalho transformou "Vou Festejar", de Aragão com Dida e Neoci, e "Coisinha do Pai", parceria com Almir Guineto e Luiz Carlos Chuchu, em repertório de massa. Este último ganhou, décadas mais tarde, um destino improvável, ao ser usado para despertar o robô Sojourner na missão Mars Pathfinder, em Marte. Resultado: viralizou mundo afora. Além de Elza e da Madrinja, o compositor foi gravado por Alcione, Dona Ivone Lara, Emílio Santiago, Zeca Pagodinho, Seu Jorge, Emicida, Diogo Nogueira, Leci Brandão, Ney Matogrosso, Martinho da Vila, Dona Lara, Jorge Vercilo, Elba Ramalho e Jair Rodrigues - isso para ficar em nomes famosos.
Sua escrita musical é como uma antena: capta o comentário de esquina, o humor, os amores ebm ou mal sucedidos. Tudo vira canção. A ferida social também. É o caso de "Identidade", lançada por Aragão em 1992, que nasce da experiência de um episódio de racismo num elevador social. "Se preto de alma branca pra você / É o exemplo da dignidade / Não nos ajuda, só nos faz sofrer / Nem resgata nossa identidade", diz o refrão do samba que virou hino da afirmação do pobo negro. Uma obra-prima. Além da afirmação política, Jorge canta o amor em "Eu e Você Sempre" e "Lucidez" e provoca com "Moleque Atrevido".
Ser chamado de poeta incomoda o artista que recusa a imagem solene e prefere de definir como alguém que observa o dia a dia e o descreve. Mas se isso não é poesia, que ela seria?
Sendo poeta ou sendo cronista, Jorge Aragão canta as coisas do povo brasileiro. iNo palco da Barra, esse repertório será apresentado por um artista que viu suas canções atravessarem vozes e gerações, de Elza, Beth Carvalho, Alcione e Dona Ivone Lara a intérpretes mais jovens. O projeto 50 Anos de Poesia, com shows, exposição e oficinas, dá a medida de sua dimensão pública. Mas o Qualistage oferece uma possibilidade mais direta: reencontrar, cantadas em coro, músicas que continuam reconhecendo o Brasil nas pequenas cenas que ele costuma deixar passar.
SERVIÇO
JORGE ARAGÃO
Qualistage (Av. Ayrton Senna, 3.000, Barra da Tijuca)
29/8, às 21h30
Ingressos a partir de R$ 150 e R$ 75 (meia)