O novo fruto de Tom Zé, o mais fiel dos tropicalistas

Prestes a completar 90 anos, cantor compositor baiano segue sua vocação vanguardista e lança o single 'Futuro Fruto' em colaboração com Marcelo Segreto, de 43, e a estreante Loretta, de 23

Por Affonso Nunes

Tom Zé reafirma sua verve criativa em single a seis mãos com Marcelo Segreto e a estreante Loretta

Às vésperas de completar 90 anos, Tom Zé segue inquieto como menino investigador. E brinca de braços dados com a criatividade, a invenção. O maior guardião do legado tropicalista acaba de lançar nas plataformas digitais o single "Futuro Fruto", uma criação a seis mãos com Marcelo Segreto e Loretta e distribuição Dobra Discos em parceria com a Gravadora Experimental, selo do Curso de Produção Fonográfica da Fatec-Tatuí (SP).

Nessas 90 voltas em torno do sol Antônio José Santana Martins tem muita história para contar. Talvez por isso gosta de proclamar sua música como "jornalismo cantado". E a nova faixa concebida com artistas bem mais novos - Segreto tem 43 anos, e Loretta, 26 - chega ao público como lançamento isolado, não integra álbum ou EP (ao menos por enquanto). É fruta colhida e oferecida sem promessa de safra maior.

"Mesmo que fosse escolhida uma pessoa-fruta, eu queria escolher uma fruta que nunca tinha existido", avisa o vangaurdista Tom Zé nos primeiros versos da faixa. "Futuro Fruto" basce de um texto livre escrito pelo compositor e transformado em poema por Loretta para, em seguida, ser musicado pelo trio, que conta ainda com Marcelo Segreto, responsável pelo arranjo e produção.

A canção satiriza a idealização romântica do amor e da arte, recuperando o contraste que atravessa a Tropicália desde sua origem em fins dos anos 1960: o mito do Jardim do Éden contra a dureza da realidade urbana.

O termo "bruto jardim" aparece na letra como autorreferência ao movimento — aquele jardim áspero cultivado em 1968 por um grupo de baianos que incluía Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e o próprio Tom Zé, e que ganhou nome emprestado de uma instalação de Hélio Oiticica, batizada por Nelson Motta em matéria bem-humorada do Jornal do Brasil.

Apesar do tom filosófico, a obra é leve. Seu arranjo exclusivamente de metais — dois trompetes, trompa, trombone e tuba — imprime a cadência de banda marcial de rua, fazendo a canção deslizar com graça e humor. Os sopros foram gravados na sede da Gravadora Experimental por um quinteto formado por Caíque Zacharias e Tarek Viana (trompetes), Júlio César (trompa), Bruno Pereira (trombone) e Ricardo Souza (tuba). As vozes dos três intérpretes foram captadas em estúdios distintos: Tom Zé no Vale do Silício, em São Paulo; Loretta também na Gravadora Experimental, em Tatuí; e Marcelo Segreto no Submarino Fantástico, novamente na capital.

A idade faz bem a Tom Zé e sua criatividade, que dialoga com a s novas gerações com desenvoltura. Por essas e outras é apontado por pesquisadores como o tropicalista que mais fielmente seguiu a proposta do movimento ao longo de toda a carreira, ainda que correndo o risco do ostracismo por não não se submeter às lógicas mercantis que regem a indústria musical.

O encontro entre essas três gerações não é acaso na trajetória de Tom Zé. Desde que David Byrne, de passagem pelo Rio nos anos 1990, encontrou num canto de loja o disco "Estudando o Samba" e o levou para o selo Luaka Bop — resgatando-o de um período obscuro que durava desde os anos 1970 —, o compositor fez da colaboração com jovens uma fonte de oxigênio. Quando o The New York Times listou "The Best of Tom Zé" entre os melhores discos de 1990, o baiano já havia sido esquecido pelas emissoras de rádio, sobrevivia dando aulas de violão e pensava em largar a música. Trinta e seis anos depois, lança um single com um compositor de 43 e uma cantora de 26 — a mesma idade que tinha ao desembarcar em São Paulo, em 1965, com o amigo Caetano Veloso para o espetáculo "Arena Canta Bahia".

Segreto traz para o encontro uma filiação associada à herança tropicalista. Idealizador da Filarmônica de Pasárgada, grupo formado em 2008 por alunos do curso de música da USP, construiu uma carreira na fronteira entre a canção popular e procedimentos de vanguarda — do "O Hábito da Força" (2012) ao recente "De Canção em Canção" (2025). Loretta, por sua vez, chega ao projeto como estreante. Formada em piano clássico, transita entre o soul e o blues numa busca autoral dentro da música brasileira. Seu primeiro single solo, com arranjo que une piano e berimbau, está previsto para o primeiro semestre de 2027. A artista ainda está olantando seu jardim sonoro.

Resta saber se a parceria trigeracional se prolongará em novas canções ou se ficará como um único fruto.