O samba como destino
Recentemente laureado com o prêmio de excelência do Grammy Latino, Ivan Lins realiza um sonho antigo ao gravar um disco só de sambas
Affonso Nunes
Afotografia é pequenina e antiga. Mostra uma casa que não existe mais — demolida, apagada do tecido da cidade como tantas coisas no Rio de Janeiro. Era a casa de Tia Ciata, na Praça Onze, onde João da Baiana, Pixinguinha, Hilário Jovino e Sinhô se reuniam para fazer samba quando o gênero ainda engatinhava. Foi a imagem destre berço esplêndido da cultura brasileira que Ivan Lins escolheu para ilustrar a capa de seu novo disco, "Sambadouro" (Selo Sesc), já dosponível nas plataformas digitais e em versão física nas Lojas Sesc.
Ivan, que completou 80 anos em 2025 e recebeu naquele mesmo ano o Prêmio à Excelência Musical do Grammy Latino, o quinto da carreira, sempre circulou pelas bordas do samba sem nele mergulhar nele de cabeça. Sua obra, marcada por harmonias sofisticadas e influências que vão da bossa nova ao jazz, dificilmente seria confundida com a de um sambista puro. Mas o samba, como ele mesmo explica, não era um terreno estranho. Era um terreno demorado. "O samba sempre conviveu comigo, e ele foi entrando devagar porque eu já vinha com outras influências", observa Ivan. "Foi me levando a esse amor pelas nossas raízes, pelo meu próprio país. O samba me ajudou a amar mais o meu país", explica.
"Sambadouro" reúne doze faixas que percorrem cinco décadas de criação. "Não Tem Perdão" e "Deixa Eu Dizer", ambas de 1974, forma pinçadas de seu álbum "Modo Livre". A inédita "Maravilhado" fecha o disco consolidando o projeto, que ainda traz belezas como "Sambadouro" (1993), "Saravá, Saravá" (2004, parceria com Martinho da Vila) e "Diplomação" (2001, com Zeca Pagodinho).
"Tô quase morrendo do coração aqui porque eu tô ouvindo a minha música de uma maneira que eu, pessoalmente, não me sentiria capaz de fazer exatamente dessa forma", confessa Ivan, com franqueza. A emoção tem razão de ser.
O disco, explica ele, foi concebido como criação coletiva, já que o artista entregou suas canções a vozes emblemáticas do samba como Zeca Pagodinho, Xande de Pilares, Mart'nália, Péricles, Ferrugem e Diogo Nogueira, que assumem os vocais em diferentes faixas, enquanto craques do ritmo como Carlinhos 7 Cordas, Paulão 7 Cordas e Rafael dos Anjos assinam os arranjos, e Hamilton de Holanda entra no bandolim com sua virtuosidade habitual.
Essa miríade de convidados permitiu ao compositor encarar sua obra por outros olhos. Baladas sofisticadas ganham o couro, o surdo e o cavaquinho. "Sou eu", de 1990, chega em parceria com Mart'nália. "Porta Entreaberta", de "Cantando Histórias" (2004), vem acompanhada de Diogo Nogueira. "Parei contigo", do mesmo show, recebe o bandolim de Hamilton de Holanda. Cada faixa é um reencontro de Ivan com suas próprias canções e de suas canções com uma tradição tão brasileira.
"O samba significa, para mim, uma identidade. Uma identidade citadina, urbana no Brasil. Desde que eu me senti capaz de entender e compreender música, eu escuto samba", completa.
Com mais de cinco décadas de carreira, 46 álbuns e canções gravadas por Elis Regina, Ella Fitzgerald, Sting, Quincy Jones e Barbara Streisand, Ivan Lins poderia descansar sobre glórias passadas. Mas escolheu o samba com a coragem de um principiante.