Sempre em boa companhia

Um dos compositores mais gravados de sua geração, João Martins reúne convidados de peso em seu novo álbum

Por Afonso Nunes

João Martins mostra seu talanto autoral nos 14 sambas do repertório de 'Beleza, Gente Boa', que chega às plataformas nesta sexta (7)

Tem sambista que conduz a carreira em linha reta, sem desviar do caminho traçado pela tradição. Afinal, em time que está ganhando não se mexe, diz o velho ditado. Mas João Martins não é desse time. Nas 14 faixas de "Beleza, Gente Boa!", seu quarto álbum, que chega às plataformas nesta sexta-feira (7), o compositor carioca costura um repertório que atravessa gerações e estilos sem pedir licença — do rap ao samba - com participações de peso: Zeca Pagodinho, Teresa Cristina, Mauro Diniz, Marina Íris, Xande de Pilares, Jorge Aragão e o rapper mineiro Djonga.

A trajetória de João começou nas rodas de samba cariocas, banjo a tiracolo, circulando por endereços nobres como o Cacique de Ramos, Renascença Clube e o Samba Luzia. Foi, porém, no concorrido Beco do Rato, na Lapa, que suas composições ganharam o destaque que hoje o credencia como um dos compositores mais gravados de sua geração — por vozes como Alcione, Diogo Nogueira, Mart'nália, Casuarina e Marcelo D2.

O novo disco, conta o artista, não nasceu de um plano fechado de participações. "A construção deste time de convidados foi feita em meio ao processo do disco, nada foi premeditado, a não ser os duetos com os meus parceiros nas canções", explica João, citando os encontros que dão o tom do álbum: Djonga em "Da rua pra lá", Xande de Pilares em "Arapuca", Jorge Aragão em "Será que Jorge vem?", Teresa Cristina em "Pingos nos Is" e o grupo Saideiras em "Corta pra nós dois". "Depois, fui pensando em quem tinha mais a ver com o repertório."

Samba é assunto de família na casa de João Martins. Filho do cavaquinista e produtor Wanderson Martins — que assina arranjos e regências de "Beleza, Gente Boa!" —, o cantor teve no pai o produtor de seus dois primeiros trabalhos: "Juízo que dá Samba" (2009), com participação de Dona Ivone Lara, e "Receita pra Amar" (2012), que trouxe Moacyr Luz e Moyseis Marques como convidados. Em 2020, veio "Suspiro", terceiro álbum da carreira, desta vez sob produção de Leandro Sapucahy.

Ao longo do caminho, João Martins também emprestou seu nome a projetos que ajudaram a documentar a memória do samba carioca, caso do DVD "Samba Social Clube" (2015) e da mostra "O Século do Samba", realizada no CCBB-RJ em 2016. Levou seu repertório a palcos fora do país — Estados Unidos, Argentina, Uruguai, Portugal — e, em 2019, subiu ao palco da Festa da Raça, no Rock in Rio.

Divulgação - Capa de Beleza, Gente, Boa, de João Martins

É como compositor, no entanto, que João Martins constrói sua marca mais reconhecível: a de quem observa o cotidiano e o devolve ao público com lirismo, sem abrir mão do balanço que sustenta qualquer samba de respeito. O artista abre trilhas novas para o samba sem perder aquele pezinho no terreiro.