Um corpo e muitos instrumentos

Multi-instrumentista e uma das vozes queer mais relevantes da música brasileira contemporânea, Maria Baraldo faz show solo no Manouche percorrendo sua árvore genealógica musical

Por

Affonso Nunes

Especial para o Correio da Manhã

Cantora, compositora, clarinetista, produtora, diretora musical — e ainda guitarrista, pianista e violonista quando a canção pede. Maria Baraldo se apresenta nesta sexta-feira (31) no Manouche.

A artista é catarinense de Florianópolis, cursou bacharelado e mestrado em música na Unicamp. Mas seu lugar musical é a cena independente paulistana — laboratório inquieto onde tocou com Elza Soares e Arrigo Barnabé, fundou o Quartabê, grupo instrumental com turnês por Brasil, Europa, Japão e América do Sul, e decidiu, em 2017, que era hora de existir também sozinha. No ano seguinte, veio "Cavala", disco de estreia com dez faixas que fazia de questões de identidade e sexualidade a matéria-prima de seu cancioneiro.

Seis anos depois, em 2024, chegou "Colinho". Produzido por ela e Tó Brandileone, o segundo álbum amplia o leque sem perder o fio: são onze faixas onde free jazz, pop, samba, choro, punk, bossa e funk coexistem não como colagem de gêneros, mas como paisagem natural de alguém que cresceu ouvindo tudo e não viu motivo para escolher. A indicação ao Grammy Latino 2025, na categoria de melhor álbum de música alternativa em língua portuguesa, confirmou o que seu público já sabia. Em entrevistas recentes, disse que o que lhe interessa na música é a invenção, não o reconhecimento. E experimentando a artista costura esse show. Além das próprias composições, ela vai traçar o que chama de sua árvore genealógica cancional — uma travessia que vai de Chico Buarque a Paul Preciado, passando por referências que incluem James Baldwin e Jorge Amado.

A relevância de Maria Baraldo, entretanto, não se esgota na canção. Desde 2019, colabora com o diretor Felipe Hirsch em música para teatro, com duas indicações ao Prêmio Shell e uma vitória no Prêmio Bibi Ferreira. No cinema, assinou a trilha de "Regra 34", de Julia Murat, que levou o Leopardo de Ouro em Locarno em 2022, e de "Levante", de Lillah Halla, premiado com a FIPRESCI em Cannes em 2023. Em 2024, criou a trilha de "Piedad Salvage", peça do Balé Municipal de São Paulo. Há quem se assuste com a versatilidade; quem conhece sua trajetória entende que é tudo a mesma coisa — a busca por uma linguagem que comporte a complexidade do real sem concessões.

SERVIÇO

MARIA BARALDO

Manouche (Rua Jardim Botânico, 983)

31/7, às 21h

Ingressos: R$ 120 e R$ 60 (meia e ingresso solidário, levando 1kg de alimento não perecível ou livro, doado a comunidades carentes)