A MPB de terno e gravata (e alpercata)
MPB4 encontra a Orquestra Petrobras Sinfônica e eterniza a parceria em álbum que chega às plataformas digitais nesta sexta
Quando a ditadura militar implantada em 1964 perseguiu e extinguiu os Centros Populares de Cultura da Uinão nacional dos Estaudantes (UNE), o Quarteto do CPC — formado em Niterói por quatro rapazes ligados ao movimento estudantil — precisou de um nome novo. Magro e Miltinho cursavam Engenharia na UFF; Ruy Faria acabara de se formar em Direito; Aquiles Reis era o poeta da turma. Adotaram então três letras e um número: MPB4, ou seja, Música Popular Brasileira para quatro vozes. Essas letrinhas, aliás, acabaram batizando a canção popular que nascia com jovens compositores pós-Bossa Nova. A sigla veio com eles e continua sendo resumindo a identidade de uma rica tradição musical.
Referência quando se trata de quarteto vocal, o MPB4 bem que poderia ter a palavra "resistência" como sobrenome. Com os CPCs na clandestinidade, o grupo assumiu posição de combate cultural contra a ditadura, abrindo espaço para canções de protesto e enfrentando a censura que lhes mutilava letras — como no caso de "Partido Alto", de Chico Buarque, em que "brasileiro" teve de virar "batuqueiro" e "titica" foi trocada por "coisica" para passar pelo crivo dos censores. "Quase sempre era uma bobagem, como em 'Partido Alto'. Era o preço para o disco sair", disse Chico Buarque de depoimento ao seu Songbook.
É esse grupo — sobrevivente de censura, mudanças de formação com as mortes de Magro (2012) e Ruy (2018) — que volta a se encontrar com a Orquestra Petrobras Sinfônica no álbum "MPB4 Sinfônico", que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (31), via Biscoito Fino.
O registro eterniza o concerto que lotou a Grande Sala da Cidade das Artes, em outubro de 2024, celebração dos 60 anos da MPB. Meses depois daquele espetáculo, quarteto e orquestra voltaram se reunir, desta vez na sala de ensaios da Petrobras Sinfônica, na Fundição Progresso, para gravar os arranjos criados para o concerto.
Sob regência do maestro Felipe Prazeres, o repertório percorre clássicos que marcaram a trajetória do grupo: "Apesar de você", "Olê Olá" e "Roda Viva", as três de Chico Buarque; "Samba do Avião", de Tom Jobim; "Porto", de Dori Caymmi; "Velas Içadas", de Ivan Lins e Vitor Martins; e "O Ronco da Cuíca", de João Bosco e Aldir Blanc. Canções que o quarteto ajudou a entranhar na memória do país, agora vestidas com o veludo dos naipes sinfônicos.
"Levar o repertório do MPB4 para o universo sinfônico não significa apenas ampliar a sonoridade das canções, mas também aproximar públicos. Muitos admiradores do MPB4 têm a oportunidade de vivenciar a experiência de uma orquestra sinfônica, enquanto pessoas que frequentam nossos concertos redescobrem a riqueza da música popular brasileira sob uma nova perspectiva. Esse é um dos papéis mais importantes da orquestra: criar pontes entre diferentes épocas, estilos e públicos. Ver jovens descobrindo MPB4, que é um patrimônio da música brasileira, é extremamente gratificante para todos nós da Orquestra Petrobras Sinfônica", destaca o maestro
"Foi a confirmação de que a música não tem idade nem fronteiras. MPB4 Sinfônico é a MPB de terno e gravata, mas calçando alpercata e olhando para frente! Para o MPB4, o ambiente nas sinfônicas — e foram tantos encontros — é de pura empatia! Sejam os professores nossos contemporâneos, seja a galera sangue bom, tá tudo em casa. A música flui solta!", define Aquiles Reis, também crítico musical do Correio da Manhã.
Paulo Malaguti Pauleira, que substituiu Magro e topou o desafio de assinar um dos arranjos do disco, conta que foi sua primeira experiência escrevendo para orquestra. Escolheu "Porto", de Dori Caymmi. "Bati uma bola com o querido mestre, pianista e arranjador Itamar Assiere, que me deu dicas preciosas sobre a escrita para orquestra", conta. Os demais arranjos levam assinaturas de Jaime Alem, Itamar Assiere e Gilson Santos — time que entende a delicadeza de servir a canção sem engolir as vozes que a criaram.
Miltinho, outro fundador remanescente, lembra que o quarteto já havia tocado com orquestras no início da carreira, nos festivais das emissoras de TV que mantinham corpo estável de músicos. Mesmo assim, se emocionou: "Esse encontro com a Petrobras Sinfônica foi maravilhoso." Para Dalmo Medeiros — que assumiu o posto de Ruy Faria —, o trânsito entre o popular e o sinfônico é coisa de família. Ele é filho de Geraldo Medeiros, foi um dos fundadores da lendária Orquestra Tabajara, e acaba de ceder para o Museu da Imagem e do Som todo o acervo de partituras, fotos e álbuns de carnaval de seu pai. "Vai ficar bem guardado e qualquer pessoa poderá acessar este acervo. Isso é muito importante para a cultura brasileira, porque a Orquestra Tabajara fez história no Brasil", anuncia.
O álbum "MPB4 Sinfônico" é o segundo lançamento do grupo pela Biscoito Fino, que já havia editado "MPB4 — 60 Anos de MPB". No dia 28 de outubro, o quarteto e a orquestra sobem novamente ao palco, desta vez no Teatro Riachuelo, para reviver o repertório ao vivo.