O cronistade si mesmoque acreditano imprevisto

Guiado pelo acaso, Maurício Pereira lança 'O Dia da Girafa', primeiro disco de inéditas em oito anos

Por Affonso Nunes

Em 'O Dia da Girafa', Maurício Pereira reúne faixas nascidas de anotações produzidas sem compromisso no inquietante período da pandemia

Ele sempre foi um homem da palavra — daqueles que enxergam na crônica cotidiana da cidade uma fonte inesgotável de personagens e flagrantes. Mas desta vez o cenário mudou de endereço: em vez das ruas de São Paulo, Maurício Pereira foi buscar matéria-prima dentro da própria cabeça. Cantor, compositor e saxofonista, ele lança nesta quarta-feira (29) "O Dia da Girafa", seu primeiro disco de canções inéditas em oito anos — o mais recente havia sido "Pra Onde Que Eu Tava Indo", de 2014, sem contar o intervalo ocupado por "Micro" (2022), trabalho de releituras.

As dozes faixas nasceram de cadernos preenchidos durante o isolamento da pandemia, quando Maurício escrevia sem compromisso, apenas para não enlouquecer. "Durante a pandemia, para não ficar louco, eu escrevi a esmo, sem compromisso, só sobrevivência", conta. O resultado é um disco liricamente menos linear que boa parte de sua obra, no qual o cronista das ruas dá lugar a um poeta que tabela pensamentos entre quatro paredes.

A produção ficou a cargo de Biel Basile, também na bateria, com coprodução de Chico Bernardes nos violões — um dos dois filhos de Maurício envolvidos no projeto, ao lado do irmão Tim Bernardes. Completam a banda Fábio Sá no baixo elétrico, Julia Toledo no piano elétrico e Tonho Penhasco na guitarra. Foi Basile quem enxergou canções em registros que nem sequer tinham a pretensão de virar disco. "A mão delicada do Biel está na raiz dessa sonoridade que o disco tem, um pouco analógica, delicada, refinada, e ao mesmo tempo descomplicada. É um disco simples; não tem nada de estrondoso, nenhuma grande invenção; é um disco de canções artesanais", define o compositor.

Ter os dois filhos como colaboradores não é força de expressão — é também reencontro geracional. Tim, que assina o arranjo de metais e divide a parceria de "Eu Trago o Coração Vazando", chega ao disco pela banda O Terno, da qual Basile também faz parte. "Tem o lado da intimidade, o fato de eles serem meus filhos, e tem o outro lado, que são músicos interessantes", pondera Maurício.

O elenco reúne ainda parceiros de décadas, como Tonho Penhasco, e estreias como Romulo Fróes, com quem assina "Casamata de Amoreiras", primeiro single do disco. "Quis botar um homem sozinho e trancar ele por dentro. E ver como a poesia reagia a isso", explica. Já a faixa-título nasceu em meio ao noticiário da pandemia, quando imagens díspares se costuraram na cabeça do compositor — uma nuvem de gafanhotos, uma greve, o céu azul apesar da atmosfera de peste. "Me pareceu uma imagem forte, porque é uma música forte no disco", diz.

Há também espaço para memória afetiva: em "Professora de Melancolia", parceria nascida de uma conversa on-line durante a pandemia, Maurício revisita a lembrança da mãe, professora de piano, e do instrumento que pertencia à tia. "O mistério de aprender, a charada de ensinar: passar conhecimento sem dar a perceber. O resto é letra de música", resume. Já em "Caquinhos", faixa instrumental garimpada por Basile entre os arranjos do compositor, a referência é o engenho popular paulistano de criar pisos com sobras de cerâmica — "esse engenho brasileiro de criar com muito pouco nas mãos, enxergar a arte onde parece impossível de ela estar", compara.

O disco se fecha em círculo: depois de abrir com "Uma Vida Standard", retoma a mesma canção em versão acústica no encerramento, mais singela, como quem volta ao ponto de partida com outro olhar.

Divulgação - 'O Dia da Girafa', de Maurício Pereira

Para Maurício, todo esse mosaico de vozes e gerações só funciona porque a palavra segue no comando. "Eles têm que vestir as letras, têm que achar clima emocional para as letras", diz sobre os músicos que o acompanham. E resume o processo criativo com a mesma naturalidade de quem aprendeu a confiar no imprevisto: "Ao longo dos anos, eu tenho deixado o acaso trabalhar cada vez mais. De repente, eu tinha essa banda."