Independentes, oh pá!

Três produções independentes de Portugal integram a mostra 'Terrinha à Vista 2' no Estação Claro Rio

Por Affonso Nunes

La Vie de Maria Manuela

Mesmo celebradas em festivais mundo afora, as produções de Brasil e Portugal enfrentam a mesma crise. Em 2025, os cinemas portugueses registraram 10,9 milhões de espectadores, queda de 8,2% em relação ao ano anterior — uma das piores bilheterias do século. No Brasil, o cenário é ainda mais grave: o público caiu 10% no mesmo período, com filmes nacionais sofrendo retração de 11,6%. Ainda assim, a Filmes do Estação dobra a aposta na autoralidade do cinema independente feito além-mar e promove a mostra "Terrinha à Vista 2", que ocupa o Estação Claro Rio, em Boatafogo, até 5 de agosto.

São três filmes em cartaz. Todos compartilham a temática da transformação pessoal, seja pela seara da violência do amadurecimento seja pela busca de identidade.

"As Meninas Exemplares" (até 22/7) é, talvez, a produção mais ambiciosa. O diretor João Botelho ação mais ambiciosa do trio. Botelho retorna à obra da Condessa de Ségur — escritora russa do século 19 que dedicou sua vida a contos moralizantes para seus netos — para desmontar a própria ideia de moralidade infantil. O filme acompanha Sofia, Madalena e Camila durante férias de verão, momento em que o desejo, sua repressão e a violência se entrelaçam. O longa coloca atores adultos nos papéis das crianças, escolha que causa certo incômodo.

Divulgação Filmes do Estação - As Meninas Exemplares

"A Condessa de Ségur escreveu 'As Boas Meninas' em 1857. Somente em 1858 escreveu 'As Desventuras de Sofia' e 'As Férias'. Li 'As Desventuras de Sofia' quando tinha seis anos de idade. Irmão caçula de três irmãs, cresci cercado pelos livros da chamada 'biblioteca azul', que eram a literatura infantil da nossa casa." Ele reconhece que a obra de Ségur é "um documento desconcertante e prodigioso que, embora nascido no século 19, dialoga de forma surpreendentemente atual com o nosso tempo."

Dirigido por João Marques, "A Vida de Marie" (23 a 29/7), acompanha Maria Manuela, jovem artista natural de Estela, no norte de Portugal, que recusa o conformismo de forma visceral. "O filme nasceu de uma curiosidade genuína pela Maria que ali vi, tal como pela sua persona digital La Vie de Marie, que partilha uma abordagem irreverente e vulnerável nas redes sociais."

O diretor explica que ambos cresceram em meios rurais com alienação e necessidade de expressão criativa. "A Vida de Marie insere-se numa reflexão sobre a Geração Z, marcada pela presença das redes sociais e pelas formas de vida que surgem com este novo contexto." No filme, a forma de ser de Maria "se choca com a tradição e os costumes portugueses, enquanto Maria incorpora tanto as suas raízes nortenhas como as influências da cultura digital."

Divulgação Filmes do Estação - As Aves

A mostra fecha com a exibição de "As Aves" (30/7 a 5/8), de Pedro Magano. Inspirado no conto "A Morte, o Tempo e o Velho", de Mia Couto, e na peça clássica "Os Pássaros", de Aristófanes, o filme retrata um velho isolado em uma ilha com uma calopsita enjaulada. Ele sonha em fundar uma cidade onde humanos e pássaros possam viver livremente. "Na Grécia Antiga, o conflito entre deuses e homens era objeto de profundas reflexões que buscavam explicar o sentido da existência. Hoje, essas relações sobrevivem como metáforas cômicas, ainda recorrentes na busca pelos 'porquês' da vida", observa Magano, acrescentando que estrutura do filme é cíclica, dialogando com "a ideia de uma existência humana infinita, repetitiva, e com a dimensão circular do Tempo."